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alba-atroz

Eu nasci em 1978, entre a pobreza gritante de Guaianases, extremo leste da capital. Cresci em estado de vulnerabilidade, pisando descalço em ruas de terra e esgoto a céu aberto, juntamente com meus seis irmãos, a sofrer, sobretudo, o abandono paterno, lutando com a mãe contra a fome, em busca das necessidades básicas, numa casa humilde, de apenas três cômodos, construída em terra de parentes que, muitas vezes, nos desconsideraram.

Discriminado, eu fui durante muito tempo o estereótipo de um futuro bandido. Lembro-me dos dedos rijos na minha cara, apontados para o meu estado crítico, enquanto debochavam das minhas roupas rotas, prevendo um futuro trágico para mim, com boicotes severos e juízos de valores. Mães e pais de colegas em melhores condições do que a minha, não queriam de jeito nenhum me ver andando com seus filhos, já que na concepção deles eu era uma ameaça, poderia arrastá-los para o “mau caminho”.

Eu era livre! Conseguia amenizar meus conflitos jogando bola nos campinhos e quadras, nadava em lagoas, tomava banho de chuva, comia frutas diretamente das árvores frutíferas, pedia balas em dias de Sábado Aleluia, empinava pipa o dia todo, quando não estava na escola que, a princípio, frequentava mais por causa da merenda e da educação física, mas foi dentro dela que me tornei um escritor.

Tudo começou na segunda série, eu tinha nove anos. Depois de uma briga com um colega de classe, lembro que recebi um longo sermão da professora e acabei ficando de castigo num banco de mármore, gelado, no corredor, ao lado da biblioteca. Ali, enquanto pensava na minha vida, uma bibliotecária nissei (filha de japoneses) me tirou da distração, chamando para terminar o castigo, folheando livros que estavam sobre a mesa. Havia Monteiro Lobato, Irmãos Green e La Fontaine. Gostei daquela atmosfera, ambiente seguro, agradável, com cortinas brancas, estampadas de desenhos de Walt Disney (Mickey, Minnie, Pato Donald, Pateta), presas aos varões de cerejeira, a combinar com as lindas estantes de madeira maciça, preenchidas com grandes obras, e as cadeiras também de madeira, com elegantes formatos, junto às mesas redondas revestidas de fórmicas branquinhas, lisinhas, bem postas numa sala arejada pelo vento que entrava da janela aberta, exibindo as lindas árvores do entorno escolar.

É claro que comecei a aprontar para ficar na biblioteca. Fui tomando contato com os autores infantis e não demorou muito para que eu ousasse escrever uma peça de teatro para a semana cultural da escola. O personagem principal era um esquizofrênico negro chamado Paulinho, que perambulava pelo bairro, depois de ser abandonado, a gritar o nome de sua ex-mulher. Antes de cair no alcoolismo, tinha sido um jogador profissional pelo Corinthians. Também havia um policial – o antagonista – que queria agredir Paulinho dentro do bar e os moradores não deixavam. A peça foi um sucesso e o público, formado por pais, alunos, coordenadores e professores, aplaudiu muito nossa apresentação. Até hoje encontro amigos da época que participaram e relembram do momento. Recebi vários elogios, diziam que eu tinha talento para escrever.

Com o tempo, quis escrever histórias em quadrinhos, flertei por um tempo com revistinhas de super-heróis, desejei ser roteirista, até que na adolescência, através do meu irmão mais velho, Luciano Regis, um frequentador de sebos, devido à necessidade de comprar livros baratos para trabalhos escolares e vestibulinhos da época, eu comecei a tomar contato com clássicos da literatura brasileira e estrangeira. Viciei na leitura, lia de tudo, mas acho que quem me formou mesmo foi Arthur Conan Doyle. Li tudo de Sherlock Holmes. Cheguei a fazer parte de fã clubes do personagem e até ousei fazer um pastiche sobre o personagem, que nunca foi lançado. Quem sabe um dia…

Ainda aos nove anos, escrevi os rascunhos do que seria o meu primeiro romance, “Reminiscências – Meu Bairro de Guaianases”, dialogando com minha falecida avó Conceição. Aperfeiçoei as ideias aos 14 anos e o livro só foi editado em 2012, na Biblioteca Cora Coralina, em Guaianases, quando me lancei primeiro como escritor Allan Regis, o meu nome civil. Desde os rascunhos de Reminiscências, nunca mais parei de escrever. Há muita coisa guardada em gaveta, esboços de muita coisa que preciso revisar: poemas, romances, contos, cartas de amor e visões, frases enfim…

Durante a graduação em Letras, no ano de 2010, ainda como Allan Regis, escrevi o romance “Mil horas sem fim”, baseado numa história que um camarada de faculdade me contou. Lancei esta obra em 2013 no Sarau Suburbano Convicto e na Cora Coralina.

Depois, em 2014, na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, lancei o livro de contos “Ler-te Integral – Escritos tipo A”, o que me fez repensar minha carreira literária em um ano cheio de reflexões. Foi aí que, em 2015, cheguei à conclusão de que era necessário um engajamento maior e que deveria me posicionar mais criticamente, trabalhar linguagens diversificadas trazendo para a escrita as falas e problemáticas presentes em minha comunidade, nesse cotidiano da atualidade. Queria transgredir mais.

Ao lado da minha companheira, Cris Oliri, com quem tenho três filhos, comecei a pensar num arquétipo que pudesse me nomear, para que eu passasse a usar um pseudônimo dali por diante, após escrever um manifesto. Foi de nossas conversas que surgiu Alba Atróz que é, por assim dizer, a metamorfose do pássaro albatroz quando este se viu fora de seu habitat natural, longe de seu arquipélago, dos nevoeiros descritos por Baudelaire, em risco de extinção, carregando os ensinamentos do grande mestre Fernão Capelo Gaivota, obrigado a refugiar-se na periferia da grande e caótica metrópole, entre outros seres em diáspora, na luta por se manter vivo. Seu nome se fragmentou em duas partes formando um híbrido ideológico e um símbolo de resistência contra aqueles que o afugentaram. O “Alba” faz, intencionalmente, alusão e homenagem a uma forma de poesia medieval conhecida exatamente como “Alba”, em que os notívagos amantes da poesia lamentavam em seus motes a chegada do dia, que raiava “atroz”, sempre após o anúncio dado pelos gritos de um vigia da torre de uma prisão, como se fosse um profeta apocalíptico, avisando que a noite ou o bom momento prazeroso que tiveram, tais poetas, às escondidas, findara-se pela insensibilidade dos que tramavam e vieram enganá-los e traí-los, semelhante ao que fizeram com Jesus no Getsêmani ao raiar de uma infeliz aurora que até hoje insistem em legitimar como progresso. Numa batalha épica, o sobrenome “Atroz” acabou sendo atingido por uma adaga inimiga bem em cima da vogal “o” de seu fragilizado corpo e ali permaneceu cravada, gravemente acentuada, como um espinho na carne, para torná-lo “Atróz”.

Assim, para marcar minha nova fase, agora como Alba Atróz, em março deste ano, 2016, lancei a obra “Virtuose”. Não se trata somente de um romance, mas também de um simpósio textual que discute a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 171/93 que visa reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. O romance apresenta um grupo de personagens que vivem sob muitos julgamentos, intolerância, desprezo, arrogância, falta de oportunidades e toda uma gama de fatores que não contribuem para ajudar o ser humano a tornar-se cidadão. Há um sistema despreocupado com o bem estar de cada um, eles buscam suas próprias saídas e nem sempre são aquelas que dizem serem as certas. O livro toca em feridas e traz um debate forte, então, resolvi convidar vários camaradas que andavam se posicionando a respeito da problemática, para fazer parte de um simpósio textual. Cada um trouxe um texto curto. Contei com as presenças marcantes de Germano Gonçalves, Walter Limonada (que participou com uma ilustração), Pedro Sobrinho (grupo de rap KMT), Daniel Lopez (introduziu a obra), Tubarão Dulixo, Mano Cákis, Daniel GTR, professor William Cezar, Rafael Arms, professor Ronaldo José e Marcio Costa. Foi uma maneira de expor um repúdio coletivo aos que querem punir e não educar os sujeitos.

Isto é um pouco da minha trajetória. Atualmente coordeno o “Sarau Simpósio de Artes Integradas – Amparo Literário”, um projeto coletivo que acontece dentro da Fábrica de Cultura da Cidade Tiradentes, visando confluir uma diversidade cultural e engajada num único evento. Eu ando também colhendo os frutos das minhas participações em coletâneas literárias como “Poetas do Sarau Suburbano Convicto” e “Pelas Periferias do Brasil – V.6”, ambas coletâneas organizadas por Alessandro Buzo. Publico resenhas e crônicas no jornal “Guaianás & Cidade Tiradentes” e realizo palestras dentro de escolas, além de meu trabalho como professor na rede particular, municipal e estadual de São Paulo.

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