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Por Sandra Felicidade

Festa na Vila – Ana Maria Dias

Festa na Vila – Ana Maria Dias

A simplicidade revela. Pensamento Zen

Nas últimas décadas vimos grandes transformações no mundo, geradas principalmente pela Internet, pela alucinante evolução tecnológica e pela globalização. Todos esses fenômenos estão diretamente ligados – um é determinante do outro. Nossa vida tem sido fortemente afetada por essa realidade, para o melhor e para o pior. A questão é que a rapidez com que as coisas mudam e a forma como nos afetam têm uma consequência insidiosa.  O gigantismo próprio do mundo globalizado tem um fascínio e vai gradualmente tirando o poder de decisão das pessoas e das comunidades. Vai reduzindo a vitalidade e a criatividade do que é local. Vivemos a síndrome do sapo cozido. Estamos imersos em uma realidade virtual e nos acostumamos de tal forma que vamos aceitando como natural o que deveria ser avaliado e adotado com muito discernimento.

A globalização e as tecnologias nos permitem ter acesso ao que antes seria impensável. Isso é muito interessante se pensarmos no leque de oportunidades pessoais e profissionais que se abre. O que nós não percebemos é que a outra face dessa realidade é estarmos totalmente dependentes de megaestruturas “sem rosto”, virtuais, poderosíssimas e absolutamente voláteis. Elas podem se transformar e até mesmo desaparecer instantaneamente quando não for mais conveniente mantê-las, considerando a lógica perversa da economia global. Isso pode parecer muito macro, mas afeta nossa vida de forma muito direta. Quem já não passou pelo descaso da empresa de telefonia quando precisou fazer uma reclamação ou quis mudar de plano? Ou pior, quando precisou recorrer ao plano de saúde numa situação de emergência e foi tratado com frieza e impessoalidade. Muitas vezes o máximo que conseguimos é o atendimento de uma gravação dizendo: “Não desligue, sua ligação é muito importante pra nós”. Quem está do outro lado da linha? Nunca tivemos tecnologias tão sofisticadas e nunca estivemos tão vulneráveis e solitários. Esse é o preço do gigantismo.

Nós já estamos no ponto em que o encantamento passou e começamos a sentir as consequências. Nosso desafio é ter discernimento para adotar a tecnologia no que ela pode contribuir para a vitalidade e o fortalecimento da nossa comunidade imediata. Lembrando que fortalecer a comunidade não é criar uma redoma; ao contrário, comunidades saudáveis são permeáveis, mantêm intercâmbios e fazem trocas. Vivem e celebram a diversidade. A cultura e a economia da nossa “aldeia” são a nossa grande fonte de segurança, principalmente num momento desafiador como o que estamos vivendo. O caminho é recuperar o senso de comunidade, comprar no comércio do bairro, prestigiar o artista/artesão local, criar parcerias inteligentes com os “pequenos” que vivem realidades semelhantes, consumir conscientemente produtos locais confeccionados ou cultivados de forma humana e sustentável.

Com a complexidade do mundo virtual e globalizado, esquecemos o valor da simplicidade e do que é local. Nossa vida não acontece na internet, ela acontece na vizinhança, na padaria onde se compra o pão quentinho, no comércio do bairro onde o dono sabe seu nome e suas preferências, no grupo de mães e pais que coopera no transporte das crianças pra escola, no pessoal que se organiza pra fazer uma horta orgânica. Essas vivências cotidianas propiciam interações genuínas e resgatam nossa sabedoria ancestral – a sabedoria da aldeia. Nossa capacidade de superar os desafios depende principalmente de nutrirmos a vida em comunidade. A simplicidade é a resposta mais revolucionária que podemos dar ao mundo mecanizado e complexo em que vivemos – e ela é a chave para uma nova humanização. Com a percepção clara do lugar que a tecnologia deve ocupar na nossa vida, é hora de resgatar o valor do que é simples, a potência do é pequeno e a singularidade do que é local.

Fonte: Eco Rede Social

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