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Por Jean Mello

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Rimando entre becos e vielas.

Resgatar os principais símbolos de resistência da periferia é demonstrar por quais razões é necessário valorizar e enfatizar a cultura periférica.

Nas primeiras linhas explico, assim não me complico, para apresentar o webclipe de Real Tegê, “Licença pra chegar”.

Durante muitos anos – pode até parecer retrógrado, pessimista ou ufanista –, a periferia, independente de seus recortes geográficos e metropolitanos sem planejamento de crescimento, com seus aglomerados de moradias nada dignas, era apenas associada à violência e, quase sempre, estampava as páginas policiais com o rosto negro em flagrante delito, em alguma atitude criminosa ou forjada.

Por pouco não deixamos para trás a real identidade periférica em nossas pautas comunicativas e na ausência dela em tudo que dizia respeito à cultura nos meios de comunicação ou nas curadorias em museus e/ou exposições artísticas. Temos que retratar, ainda hoje, mesmo com todas as mudanças no trato com as quebradas, com muito esforço para demonstrar com mais justiça, as regiões periféricas.

A luta diária do trabalhador que abre mão de passar mais tempo com a família para garantir o sustento.

Quantas não são as mulheres a sair de casa quando o sol ainda nem nasceu? Muitas delas dão todo cuidado à casa de seus patrões e gastam muito menos tempo com seu próprio lar.

Ônibus lotados, gente se empurrando e competindo, correndo. Assim chegam no horário combinado, nas assinaturas contratuais ou na base da informalidade dos subempregos.

Gente contando o dinheiro, nota por nota, moeda por moeda, para ter as contas pagas e chegarem inteiros ao final do mês.

E a cultura pulsando nos becos e vielas, favelas. Não é cultura subalterna, é simplesmente periférica. Também não é marginal, é marginalizada, rotulada. Temos de colocar as palavras no eixo para não serem destorcidas, contorcidas.

Estou aqui, ouvindo o som de Real Tegê, atualmente trabalhando em um livro de poesia e prosa, o primeiro de minha carreira. Além disso, ainda esse ano, vai sair nova edição do meu livro já publicado e esgotado no mesmo ano de publicação, “Exalando Esperança”. Mas quanto ao meu livro inédito, ainda sem título, obra que ainda estou lapidando, contando com a contribuição de pessoas gabaritadas, tem um trecho já muito pertinente para ser utilizado nesse texto.

acelerados os nossos dias
clamamos por aconchego, família
nossas armas não se restringem à poesia, prosa

cansados em neblinas pseudosociais
escrevemos e nos chamam de marginais

marginalizada é minha literatura
em grande parte aprendi na rua
sem vida marginal
observação pura e intelectual
simplesmente sociocultural

Real Tegê ressalta o que muitos acham que está extinto na periferia, ou praticamente. Eu mesmo, em muitos de meus escritos, estabeleço alguns diálogos com essas ideias. Não se extinguiu, falta sensibilidade para ver.

Amizade em forma de poesia.

Amizade em forma de poesia.

As crianças brincando, as beldades das quebradas, estonteantes, com traços de africanidade plena, os manos, amizades e zueiras, lembranças que não são interrompidas mesmo quando alguns vão embora muito mais cedo.

A poesia, sobretudo, a alma do poeta.

“Os guerreiros oriundos da periferia são forjados pela vida, realidade dura. Todos com fome de conhecimento ou muitas vezes do próprio alimento. Quando seu olho presencia essa realidade, a percepção sobre o mundo muda, se transforma”, afirma Real Tegê.

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