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Olhares sobre os extremos

Fotógrafo e educador, preocupado com questões sociais relacionadas às causas socioambientais, juventude, direitos humanos, desigualdades sociais e de oportunidades. Seu nome é André Bueno.

Os extremos das cidades carecem de um novo olhar, mais rebuscado ou fidedigno ao real, despido completamente dos conceitos construídos para marginalizar comunidades, especialmente na zona sul de São Paulo.

Grajaú, seu principal local de atuação, não somente retratando com imagens carregadas de técnicas evoluídas, adquiridas com anos de estudo e muita prática. Ele forma jovens para seguirem seus passos, ou ao menos para entenderem qual é a importância desse olhar acerca da periferia.

André levou uma parte de sua jornada como fotógrafo, compartilhando seus registros em imagens sobre as margens da represa Billings, em uma exposição no Sesc Interlagos – Margem: Um Olhar sobre o Extremo. Não queremos saber apenas da exposição que finalizou recentemente. Pode nos contar ainda mais sobre você e sua arte?

Lixo humano carregado por um cão. Represa Bilings,São Paulo/SP -Brasil Foto: André Bueno

Lixo humano carregado por um cão. Represa Bilings, São Paulo/SP – Brasil Foto: André Bueno

Inspirando Sonhos: Sua trajetória, queremos saber dela. Raízes da infância, periferia, educação alinhada com a comunicação, cultura, organizações não governamentais e a tão sonhada Universidade de São Paulo.

Nasci na Zona Sul de São Paulo, morei até os 7 anos no Jardim Eldorado em Diadema e aos 8 anos vim para a região do Grajaú. Cresci brincando na rua e acho que daí vem a essência do meu trabalho autoral como uma forma de resgate de minha infância e fortalecimento da minha identidade. Aos 14 anos entrei na Escola Técnica de Mecânica e após 8 anos trabalhando como mecânico de precisão (fresador e ajustador mecânico) decidi mudar de área. Foi quando entrei na Faculdade de Propaganda e Marketing por volta de 2002 e tive o primeiro encantamento pela máquina fotográfica durante uma aula de fotografia publicitária. Acredito que a minha formação técnica mecânica influenciou muito no desejo de me aprofundar na técnica fotográfica. Desde então, não parei mais de fotografar, me tornei repórter fotográfico, iniciei o trabalho documental e também com educação na comunidade de Paraisópolis (2008) com o Projeto Um Olhar. Trabalhei com inúmeras ONGs ensinando técnicas fotográficas com o objetivo de promover diálogos e olhares críticos junto com a juventude. Por volta de 2012 iniciei a Pós-Graduação – Especialização em Gestão da Comunicação: Políticas Educação e Cultura, na Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP), com o objetivo de entender o meu próprio trabalho com fotografia e educação. Foi muito bom para amadurecer meu olhar sobre os projetos em que vinha atuando, bem como para o meu amadurecimento teórico. Foram dois anos de estudos com apoio da orientadora e professora Cristina Costa, do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (Obcom).

Inspirando Sonhos: Fotografia… Uma outra forma de ler o mundo sem ser por intermédio da palavra? Você é muito leitor de livros? Se for, como as suas leituras influenciam as suas imagens?

Acredito que a fotografia é uma alternativa para se ler e compreender o mundo, bem como para se expressar e se posicionar na sociedade, é uma alternativa para a livre expressão, pode ser um grito, um olhar, um meio de dizer e mostrar o nosso ponto de vista. Mas, a fotografia também pode ser um pretexto para nos conhecermos melhor, para descobrir o nosso território. Ela é poesia, também pode ser denúncia ou simplesmente uma foto. Vai depender de quem faz a fotografia ou de quem a vê, ou seja, as fotos tocam as pessoas e podem, em algum momento, deixar de pertencer a você, principalmente quando “caem na rede” ou as pessoas se apropriam delas. Só torcemos que seu uso sempre seja positivo. Leio bastante, embora gostaria de ler mais. Basicamente leio livros sobre comunicação, arte, filosofia e fotografia. Os últimos lidos foram: “Elogiemos os Homens Ilustres”, de James Agee e Walker Evans; “A Estetização do Mundo: viver na era do capitalismo artista”, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy.  Estas leituras me ajudam a ter um olhar mais crítico, me colocam em contato com leituras mais clássicas e outras atuais, inclusive na maneira de narrar minhas próprias histórias. Acredito que a leitura auxilia muito no amadurecimento do trabalho fotográfico, bem como na organização das ideias. Após 12 anos de trabalho com fotografia, o olhar tende a ficar condicionado e a leitura é uma válvula de escape, um modo de ler o mundo diferente que nos estimula a desenvolver nossas fotografias mentais.

Grajaú / Cocaia São Paulo. 16/09/2009 Foto: André Bueno

Grajaú/Cocaia São Paulo. 16/09/2009 Foto: André Bueno

Inspirando Sonhos: Periferia é periferia em qualquer lugar, inclusive no Grajaú?

Por um tempo eu não gostava do termo periferia, pois me parecia uma forma de excluir e separar a cidade, como o Centro e a Periferia ou a Periferia e o Centro. Mas, depois de muitas andanças por aí, de fato vejo que a cidade é dividida e muitos daqui fazem questão de dizer: “Eu sou da periferia, aqui na periferia temos voz e temos olhar, a periferia resiste e existe, somos felizes aqui e temos orgulho de ser daqui”. Então, entendo que cada periferia ou qualquer região da cidade tem a sua identidade e suas comunidades. Posso afirmar que nas periferias, o que têm em comum, são os movimentos culturais e sociais que estão cada vez mais fortalecidos e enraizados. Isso é muito bom. Eu nasci na periferia, sou e ainda moro nela, também tenho orgulho das minhas raízes e de ser do Grajaú. Daqui têm saído muitos talentos que seguem pelo mundão cheio de essência tendo a periferia como fonte de inspiração e força para tocarem suas vidas.

Inspirando Sonhos: Quais são seus sonhos já alcançados e os ainda não conquistados?

Não sei quais são meus sonhos, a vida tem sido tão corrida que, às vezes, falta tempo para sonhar. Eu tenho certeza que quando estou fotografando me desligo de tudo, assim como nos sonhos… Talvez , o meu sonho seja aquela fotografia que ainda está por vir, uma fotografia ou projeto importante que impacte na vida de muitos, de maneira positiva, fazendo as pessoas refletirem por uma sociedade mais justa e menos desigual, uma sociedade em que a juventude tenha direito de sonhar ou não perca a vontade de sonhar. Afinal, como diz um amigo meu, o rapper Mano Moneys, somos do tamanho do nosso sonho, então, eu espero que minha próxima foto seja bem grande, mas bem grande mesmo.

Inspirando Sonhos: O que é a vida?

A vida pode ser longa ou curta, mas não se trata da quantidade de tempo que estamos na terra, e sim da forma e intensidade como vivemos aqui. Um modo de olhar pode ser um modo de vida, assim como a poesia para o poeta pode ser a própria vida. Arte é vida.

Inspirando Sonhos: Qual pergunta não fizemos, mas, mesmo assim, deseja abordar?

Noto que a fotografia está cada vez mais enraizada na sociedade e na juventude e isso é muito bom. Por outro lado, nossas escolas públicas não tem estimulado olhares críticos, empoderados ou livres. A escola e a educação precisa mudar muito, estimulando novas alternativas de ver o mundo. A Educomunicação é um bom caminho e os coletivos culturais tem exercido papel fundamental nessa mudança. Então, acredito que a fotografia é uma linguagem que tem se transformado muito rápido e vivemos nessa fase midiática em que a imagem faz parte da nossa rotina. Por este motivo temos que ficar atento às imagens, para que aquelas mais importantes de serem compreendidas e discutidas não passem desapercebidas por nenhuma das gerações.

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