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O universo paralelo do mestre dos zines

Educadores não são escritores por natureza, nem todos dão valor às letras como ferramenta de suma importância para o aprimoramento das práticas pedagógicas. Muitos são os educadores/pesquisadores. Mas poucos, se considerarmos o tanto de pessoas engajadas com educação, como militância ou prática profissional, no Brasil.

Claro que estamos nos apoiando na Pedagogia da Autonomia. As pessoas que leram esse clássico, escrito não apenas para pedagogos, sabem que Paulo Freire nos alerta sobre a necessidade de o educador assumir posturas críticas perante o mundo, ao fazer uma leitura profunda dos fatos para fortalecer ações de natureza pedagógica e de comunicação como importante ferramenta educativa. Isso em linhas gerais, mas é lógico que transcende.

Educação nem sempre anda de mãos dadas com criatividade, longe do tradicionalismo cego. Um país que não reconhece Paulo Freire como um dos maiores mestres que tivemos, irá dar valor para as práticas e formulações teóricas de Celestin Freinet?

Quase anônimos nos bancos universitários do Brasil, famosos nos rincões do mundo, nas universidades mais conhecidas do planeta ou nas praticamente invisíveis. Mesmo assim não deixaram de ser pioneiros, empreendedores, desbravadores e donos de visões futuristas acerca das realidades educativas e para nos libertar dos radicalismos do que conhecemos como educação tradicional. Esses ícones da educação continuam a inspirar muita gente.

Talvez esses – e inúmeros outros aqui não citados – tenham aberto as portas para educadores que militam em organizações sociais de bairro ou em movimentos culturais impulsionados por projetos sociais financiados por empresas e editais.

Márcio Sno, nosso entrevistado de hoje, é um desses. Inovador e ousado, principalmente por ter publicado o livro O universo paralelo dos zines. O que deveria ser comum em meio às realidades educativas, é exceção. Todo educador deveria ser também pesquisador. Quando falamos de pesquisa não estamos defendendo que educadores se embreiem no academicismo ou leiam livros empoeirados nas prateleiras do saber intocável.

Pesquisador da arte dos zines, como ele mesmo prefere chamar os fanzines, vai nos falar um pouco de seu vasto trabalho, imerso na cultura e educação. Ele agora está com a palavra.

Tatoo

Inspirando Sonhos: Educomunicador, articulador comunitário, fanzineiro… Como tudo isso começou?

Bem, dentro dessa lista, o que vem primeiro foi o zine. Há exatos 23 anos. Eu era um jovem de 18 anos que estava em busca de coisas diferentes e o contato com esse tipo de publicação fez com que eu me tornasse um editor de zines e, desde então, nunca mais consegui me separar deles. Trabalhei por 17 anos em uma ONG e fiquei a maior parte desse tempo coordenando equipes de arte-educadores e as articulações surgiram naturalmente, até porque fazia parte de meu trabalho. Já como educomunicador atuo há 11 anos. Comecei com oficinas de zines por vários lugares do Brasil, para diversos públicos: desde crianças até a terceira idade e muitos grupos de educadores. Recentemente coloquei temáticas diferentes em oficinas e, desde o começo do ano, venho atuando como educomunicador em uma escola em Embu Guaçu, com crianças do 1° ao 6° do Ensino Fundamental.

Inspirando Sonhos: Qual é o Universo Paralelo dos Zines? Explique para as pessoas que nunca ouviram falar dos Fanzines ou para quem está na caminhada faz tempo. Um merchandising do seu livro. Aliás, o que aqui não é?

Então, esse livro veio de uma inquietação que sempre me perseguiu: produzir mais material de pesquisa sobre zines, que é muito escasso no Brasil. No meio dessa pesquisa, produzi também três capítulos do documentário Fanzineiros do Século Passado, que também surgiu por não termos, até então, documentários sobre o tema também. Logo, esses lançamentos tiveram como objetivo registrar um período do fanzinato nacional, dos anos de 1990 pra cá. Esse livro é o resultado de 8 anos de pesquisa autônoma e intuitiva, baseando-me em livros, documentários, zines, artigos (em português, espanhol e inglês), além, é claro, de minha vivência nesse universo. Busquei nesse livro apresentar uma escrita que se assemelhasse com um bate-papo, pra não ficar aquela coisa maçante de trabalhos de dissertação, e acho que deu certo, pois as pessoas sempre me trazem esse retorno.

Inspirando Sonhos: Sua atuação como educador mudou muito depois da publicação de seu primeiro livro, ou nem tanto?

Na verdade, não teve muita influência, pois eu já tinha meu trabalho como educador meio que já consolidado nesse meio. Mas, obviamente, me deu mais credibilidade e respeito, além de ser um bom cartão de visitas para novos trabalhos.

Inspirando Sonhos: Em sua trajetória, pisou muito em regiões periféricas? O que é mais fascinante nesses trabalhos com ou em comunidades?

Não tem como desvencilhar meu trabalho da periferia, uma vez que eu também moro nela. Amo trabalhar na quebrada, fazer coisas com a quebrada! É lá que as coisas precisam acontecer e é pra lá que precisamos (nós educadores) ir e estar! Percebo que quando vou realizar um trabalho, o pessoal da periferia é o que dá mais atenção, principalmente porque eu sempre promovo a participação central dos educandos: eu apenas apresento os materiais e como fazer pra colocar as ideias pra funcionar, o resto é com eles! E quando eles se vêm como protagonistas e/ou produtores, a autoestima deles voa muito alto. E isso é o que importa e me alimenta como educador.

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Inspirando Sonhos: O que é educomunicação para você?

Essas perguntas específicas só servem pra quebras as nossas pernas! Ahaha! Mas vou tentar ser mais prático possível… Educomunicação é você apresentar e ressignificar uma ferramenta de comunicação para uma criança, adolescente ou jovem, para fazerem sua leitura de mundo e, ao mesmo tempo, comunicar, transformar e se transformar.

Inspirando Sonhos: Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou ao escolher lidar com cultura e educação?

Quando a gente trabalha com arte percebemos na pele o quanto ela é desvalorizada (ou como diria minha saudosa amiga Cecilia de Lourenço “cultura é beirada de pizza”), e sempre deixada de lado em planejamentos estratégicos ou vista como algo transformador e emancipador. Arte, para a maioria dos administradores, não é ligada a um conjunto de valores que pode mudar uma pessoa, uma organização, uma comunidade… Para eles, só serve pra festinha de final de ano, pra festa junina, pra dancinha no dia das mães. Além, também, da remuneração não ser a merecida. Acham que artista não pesquisa, não estuda, não trabalha além do horário de atuação (isso também serve para os educadores). É prioritário para eles investir em propaganda ou em consultores que só servem para atrapalhar o trabalho (pois não sabem como é trabalhar com o público da quebrada). Nós que vivemos nesse meio sabemos o quanto a arte ajuda a criança, o jovem, o adolescente a se descobrir, se entender, se expressar e isso tem tudo a ver com educação. Por que é tão difícil de perceberem isso?

Inspirando Sonhos: Quais são as pessoas que te inspiram? Considere os famosos e os anônimos para o grande público.

Nossa! Muitas pessoas e coisas me inspiram em variados ramos de atividade. Na música, na poesia, na literatura, nos quadrinhos, nas intervenções urbanas, nas artes plásticas e cênicas, enfim, sempre tiveram uma influência gigantesca na minha vida. Andar na rua, observar as coisas, sempre trazem algo para minha eterna formação.

Inspirando Sonhos: Cite situações emocionantes que você viveu como educador…

Ah, muitas! Você encontrar com um educando que te vê como uma referência, já é um grande ganho. E eu convivo com isso toda a semana e me enche de ânimo para continuar acreditando em meu trabalho. A gente, como educador, sempre coloca alguns desafios em relação a alguns educandos, aqueles “mais problemáticos” e que você consegue torná-lo um aliado seu, pelo fato de despertar nele o seu potencial, elevando a sua autoestima, isso não tem o que pague. E eu tenho passado por muitos casos desses nesse ano, sejam eles individuais ou coletivos. Tenho ainda muitos desafios, mas saber que sou importante para uma criança (que é o ser mais sincero que existe na face da terra) é coisa pra se emocionar e renovar a esperança de que a vida vale a pena.

Inspirando Sonhos: Uma mensagem final ou questões que não foram mencionadas…

As coisas na minha vida são estranhas, elas surgiram sempre de forma não intencional: foram acontecendo. Sou muito intuitivo também, deixo as coisas acontecerem naturalmente. Às vezes fico matutando dias para resolver uma questão com determinada turma e, quando estou em sala de aula, as coisas se resolvem por elas mesmas, de acordo com a vibe da turma. Aprendi uma coisa com José Saramago (escritor português) de não criar expectativas com as coisas: apenas faça sem ambição. O retorno vem naturalmente. E acredito piamente nisso. Às vezes bate um desespero de uns 15 segundos, mas acaba tudo se resolvendo aos 30. Então, meu recado é: faça sem pensar em consequências. Elas virão ao seu encontro!

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