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Por Alba Atróz

escuridão

Preto Japi morava num dos barracos às margens da curva do rio. Lá perto da pedreira. Notívago, com seu 38, de cara sempre amarrada, gostava de apagar a luz das estrelas do céu e murchar o luar do bairro – a noite era dele. Assim, sob o temor, a gente se recolhia muito cedo. Quando qualquer barulho semelhante a um tiro se misturava aos uivos ou latidos de cães na madrugada, o povo despertava assustado dizendo: – Japi deve ter matado mais um por aí.

Num dia, pela manhã, após a estiagem das fortes chuvas, enquanto as poças de lama secavam, estávamos jogando uma pelada às margens fétidas do Guaratiba, velho ribeirão de Itaquera, quando a bola voltou a cair no córrego. Lamentei bem mais do que em outras ocasiões, pois era, infelizmente, a minha vez de ir lá pegá-la, pelo trato feito em “dois ou um” e “par ou ímpar”.

Eu não podia perder tempo, pois, caso ela tomasse contato com a correnteza do rio, seria levada rapidamente para longe de nós. Tirei então meu “conga” vermelho e me arrastei pela encosta. Lá embaixo havia algumas pedras grandes enfileiradas começando pelas moitas da margem esquerda, nosso lado, indo até uma parte rasa do rio, o que me permitia ir saltando de uma em uma até um limite antes de as águas começarem a se avolumar e a tomar a cintura da gente. Quando dávamos sorte, conseguíamos interceptar a bola sem precisar nos molhar, mas só se realmente déssemos sorte mesmo.

Não teve jeito, tive que atravessar. O chute do Fabinho foi muito forte. Primeiro a pelota bateu na trave e ia indo na direção do brejão, só que acabou ricocheteando numa árvore, rolou por um declive e acabou caindo num trecho do rio entrecortado por pequenos morros ou dunas de areia suja e coberto por um denso matagal.

Lá fui eu.

– Ela deve tá nesse meio aí, Allan! – gritou o Fabinho. Mais pra cá, moleque! Entra aí nessa parte aí, meu! Tá no meio desses mato aí, eu vi quando ela caiu.

Fui afastando com as mãos o matagal. E, antes de ir mais à fundo, tive tempo de olhar para o céu cinza, nublado, sobrevoado por urubus agourentos. Tive vontade de voltar pra trás, mas os gritos do Fabinho me obrigavam a continuar:

– Vai logo, meu!

Embrenhei-me de vez e acabei, por um instante, sumindo da vista dos moleques. Ali, sozinho, no meio daquela sarça infernal, comecei a sentir um cheiro de carniça misturado com outros odores que ia ficando cada vez mais intenso e insuportável à medida que eu ia avançado em busca de nossa pelada. Prossegui com a mão no nariz. Estava difícil respirar. Ao tirar do meu caminho um dos feixes de capim, tomei o maior susto da minha vida ao ver o cadáver do Preto Japi enroscado ali, todo inchado entre latas de óleo, tralhas e outros lixos mal descartados, com uma bala na cabeça. Um enxame de moscas zunia alvoroçadamente sobre ele. Peguei rapidamente a bola que estava próxima ao morto e corri apavorado gritando:

– Ei, gente! Mataru o Preto Japi! Eu vi! Eu vi! Eu vi…

Não houve lamentações. Afinal, todo mundo se sentiu aliviado com a morte do bandido que acabou deixando vivas as brilhantes estrelas e a linda lua no céu do bairro para os oprimidos moradores apreciarem a noite sem aquele medo de outrora.

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