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Para ler a primeira parte da entrevista com Mel Duarte clique aqui.

Inspirando Sonhos: Por quais razões, na atualidade, o feminismo ainda é importante?

Mel Duarte: O feminismo é importante para que as ‘manas’ se deem conta do quanto é necessário a gente ainda lutar pelos nossos direitos, do quanto a gente ainda é passada para trás em diversas esferas. Eu fico muito triste quando vejo mulheres não compreendendo o feminismo e apontando de uma forma negativa. Acho que, geralmente, essas mulheres são pessoas privilegiadas, que nunca se deram conta do quanto de machismo existe na sociedade e o quanto elas são oprimidas. E eu entendo, porque isso é um tempo diferente para cada uma.

Todas nós nascemos feministas, só que a gente para pra entender e nos observar dentro desse quadro depois de um bom tempo. Eu mesma fui entender o que é feminismo faz pouco tempo, sempre fui essa mulher com o ímpeto de querer fazer a diferença e de achar que várias coisas não são justas pelo fato de eu ser mulher. Percebi isso dentro do campo da literatura, mas até eu entender o real significado e que todos esses meus ímpetos eram coisas de uma feminista… Então, eu falei pra mim mesma: “Nossa, eu sou uma feminista”. E demora, eu entendo que para cada mulher tem um tempo diferente. Eu só espero que muitas delas despertem o quanto antes, porque a gente precisa de ‘manas’ envoltas nessa força, temos de ter nosso espaço e os nossos momentos de fala. É importante estarmos unidas porque isso tem feito toda a diferença. Eu percebo que quanto mais as mulheres se juntam pra fazer atividades, independente de quais elas sejam, elas sempre têm um brilho diferenciado, uma qualidade maior. Nós estamos desde o início dos tempos, em todos os lugares, somos a inteligência e é essencial que a gente se perceba nisso e se dê o valor, sabe? E o feminismo vem para nos ajudar a realmente se perceber e se entender nessa sociedade.

Inspirando Sonhos: Como é ser a voz de milhões de pessoas que não são ouvidas?

Mel Duarte: Não acho que eu seja a voz de milhões de pessoas não ouvidas. Milhões são muita gente, eu não sei (risos), porque o problema não é que as pessoas precisam nos dar voz, as pessoas precisam nos ouvir. Falamos por nós mesmos. A periferia fala por si, as mulheres falam por elas mesmas.

O problema é que as pessoas andam bem intolerantes, indiferentes às causas dos outros. Então é só quando “a água bate na bunda” que você vai começar a correr atrás dos seus direitos, ou de algo que lhe parece importante, mas nós temos de entender que fazemos parte de um todo.

A minha intenção nunca foi falar por outras pessoas, sempre foi falar por mim e pelas minhas inquietações, pelas coisas que eu vivo. E pra mim é gratificante saber que outras pessoas se sentem contempladas com a minha fala. Isso faz toda diferença nesse movimento.

Estou há dez anos dentro do ciclo da literatura independente, atuando e trabalhando com saraus e produção cultural, voltada sempre pra literatura. E eu percebo o quanto é importante que a gente tenha esses espaços de troca, pra gente amadurecer e refletir. Fico muito feliz de saber que o que eu trago dentro de mim, quando eu consigo colocar pra fora em forma de poema, atinge as pessoas e causa uma diferença, interna. Isso é o que eu acho mais incrível, quando recebo retornos, tanto de mulheres quanto de homens e crianças, de diversas esferas, credos, raças, idades, cada uma tem um ponto específico que um poema bateu. Fico grata em saber que as coisas que eu trago, de indignações dentro de mim, fazem parte de outras pessoas. Isso faz com que eu não me sinta tão sozinha.

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Inspirando Sonhos: Quais são seus sonhos e o que te motiva a continuar acreditando neles?

Mel Duarte: Sou super romântica e acredito em uma mudança, uma transformação social, principalmente quando utilizamos a poesia, a literatura e o rap como ferramentas, que são de grande escala potencial para transformação social desse país. Percebo isso quando atuo em escolas, em fundações casa, em presídios, onde a gente pensa que a esperança está perdida e você pode ajudar a reconstruir tudo aquilo com a força da palavra, com a força da sua verdade.

Eu quero continuar trabalhando com a palavra, com a poesia, ela me faz ser uma pessoa melhor, permite que eu me entenda em diversas escalas e me faz libertar esses demônios que ficam aqui gritando dentro de mim. Acho que se eu não escrevesse seria uma pessoa infeliz. Isso é um fato. E meu sonho é continuar atuando com isso e conseguir fazer com que as pessoas percebam a poesia na vida delas. Deixamos, às vezes, passar coisas simples e, de uma forma batida, perdemos, também, o que é a essência do viver.

Quero muito continuar atuando com isso, com outras pessoas, coletivos. Eu entendo que trabalhar num conjunto faz toda diferença e eu jamais estarei sozinha, pois jamais vou sozinha. Quero também continuar dando força para as ‘manas’, criando eventos e oportunidades, que as mulheres mostrem seus talentos e consigam cada vez mais ocupar um espaço nessa sociedade. Eu tenho essa gana.

Tenho milhares de sonhos em diversos aspectos, desde questões de produção, até outras de cunho pessoal. São várias ideias. Mas eu acho que, resumindo, é isso: continuar fazendo o que eu faço e continuar acreditando nisso como ferramenta para transformar essa névoa pesada que temos visto e o que tá chegando pra gente. Eu percebo que agora e, mais do que nunca, a poesia tem que estar atuante, jovens devem estar atuantes, pra que a gente consiga transformar esse país, porque tá foda!

Inspirando Sonhos: O que é a vida?

Mel Duarte: O que é a vida (risos)? Não sei te responder essa pergunta. Pra mim isso é muito complexo, não tenho uma resposta formada a respeito disso. A vida é esse mix de coisas que acontecem com a gente. Não sei te responder isso, é uma pergunta ampla…

Inspirando Sonhos: O que não perguntamos, mas, mesmo assim deseja trazer à tona?

Mel Duarte: Só para pontuar o que talvez ficou faltando…

Como eu falei, atuo na literatura independente há dez anos, frequento esse movimento dos saraus e acompanho o que acontece em São Paulo, de um cinco anos pra cá, em outros estados. Faço parte de um coletivo chamado “Poetas Ambulantes”, há quatro anos. Declamamos e distribuímos poesias dentro dos transportes públicos de São Paulo e de outras cidades, se formos convidados. A proposta é levar os saraus para dentro dos locais públicos, onde as pessoas estão transitando e não se dão conta de que a poesia faz parte do dia a dia da vida delas.

Esse ano, junto com outras parceiras, criamos o “Slam das Minas SP”, que na verdade é um braço do “Slam das Minas”, que acontece em DF. Nós entendemos a necessidade de ter um espaço de troca de poesia só para o gênero feminino, para nos fortalecermos e chegarmos cada vez mais com força nas batalhas de poesia ou nos saraus. Mas, como essa cena tem aumentado e o fluxo de figuras masculinas é sempre gritantemente maior, e as mulheres sempre vão para assistir, não são todas que geralmente declamam, mesmo sabendo que muitas delas escrevem. A gente entendeu a necessidade de criar esse espaço, de criar esse slam, pra trocar entre nós. Tem sido incrível, fortalecedor, um sucesso. Fiquei feliz com a aceitação da galera em somar com o “Slam das Minas SP”. Tem feito muita diferença esse ano em minha vida, esse corre também, tem sido bem especial.

É isso, de coisas a mais que faço, além das produções culturais e estar envolvida em todo tipo de evento ou de oportunidades que eu vejo que consigo incluir a galera da literatura. Considero importante que a gente seja um movimento e é necessário ganhar dinheiro com os nossos trabalhos. Querendo ou não, a gente aprende a ser empreendedor, microempreendedor, a resolver algumas burocracias para conseguir estar em lugares que é necessário que a gente esteja, sabe?

E me deixou mais feliz ainda ver nesse ano a produção literária das ‘manas’. A mulherada está chegando com muita ideia boa, com qualidade artística, incrível.

Esse ano foi bonito ver de perto, a conquista das mulheres em vários recortes, mas falando do que eu acompanho, do que eu trabalho dentro da literatura, nós tivemos um “boom” muito legal, um apoio grande uma da outra. E isso fez a diferença. Ano que vem vamos ter muitas surpresas vindas de várias mulheres, sendo elas do rap, funk e da poesia. As ‘minas’ não estão economizando, elas estão mandando bala. E isso tem me feito muito feliz. Faz a diferença, total.

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