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É encantador vê-la recitar poemas e encher cada coração de verdade, indignação e esperança. Mas é simplório e redundante ficar só com essas palavras para descrever sua atuação enquanto escritora e produtora cultural.

A educação social permeia sua escrita – carregada do que é visceral – para deixar marcas em espaços nem sempre constituídos ou reconhecidos como plenos para realização de ações educativas, como a Fundação Casa, com as já conhecidas histórias de dor.

“Coração de Mãe”, uma das poesias de seu novo livro, é dedicada aos meninos de lá, inspirada em seus atos educativos nesse espaço. Seria, mesmo que de modo inconsciente, um diálogo com a música “Dia de Visita”, do grupo Realidade Cruel?

Ela representa milhões de vozes oprimidas pelo racismo e machismo, perpetuados durante séculos pela vergonhosa história mundial, manchada pelos horrores da escravização negra, algo que nos assola até os nossos dias, com outras faces ocultas e, por que não dizer, subliminares?

Mel Duarte é também a sofisticação da luta, com seu raciocínio rápido, habilidade e força quilombola nas palavras, qualidade de uma artista muito bem preparada não só nas linguagens e técnicas literárias, sua poesia já é imortalizada.

Com seu livro mais recente, “Negra Nua Crua”, corrói todas as injustiças sociais com os ácidos de suas poesias. Ela nos rasga com uma afiada espada literária e nos coloca do avesso, depois nos devolve para o mundo e nos recebe não só com a beleza estética de sua poesia, ela também é uma Diva.

Só de olhar para ela sentimos enorme alegria em viver.

mel

Inspirando Sonhos: Referências literárias, culturais, quais são as suas?

Mel Duarte: Eu demorei muito para ter referências literárias, comecei a ter depois de grande, ao começar a frequentar os saraus, a partir dos meus dezoito anos. Nessa época é que passei a conhecer escritoras, principalmente negras e que faziam parte da mesma realidade que a minha, com vivências semelhantes.

Acabei caindo na poesia por vontade própria, não foi por interferências familiares ou de pessoas próximas. A poesia, na verdade, foi dita para mim como algo de gente morta, distante. Fui entender que eu podia mesmo ser essa figura que escreve, depois, também, dos meus dezoito anos.

Referências culturais tenho várias porque, graças a Deus, meus pais são super ligados à arte e cultura. Meu pai é grafiteiro, minha mãe é formada em Artes, mas hoje ela é massoterapeuta. Cresci vendo peças de teatro, frequentei muitos shows ao ar livre e fui a diversas exposições em museus. Então, consegui obter da arte com os meus pais, principalmente ao ver meu pai pintando na rua. Foi nesse momento que eu tive a oportunidade de conhecer mais o hip-hop, me envolver mais com isso e, com certeza, fez toda diferença em minha caminhada.

Inspirando Sonhos: Fale-nos de suas memórias escolares…

Mel Duarte: Eu comecei a escrever com oito anos, justamente porque eu conheci a poesia na escola. Chegou um livro de exercícios pra gente e ali explicava melhor o que eram alguns recortes literários e dentro deles tinha a poesia. Lá era descrito como funcionava a métrica e eu achei muito louco ver as rimas, o que cada uma significava, a primeira estrofe tem de rimar com a terceira e a segunda com a quarta, aquilo me deixou bastante interessada. E a partir dali eu comecei a escrever.

Sempre gostei das aulas de português. Pirava em fazer redação e essas coisas, tudo o que tinha a ver com escrita me amarrava. As outras coisas eu não curtia estudar, mas o português sempre foi a minha praia. Eu sempre escrevi muito pra mim mesma.

Quando eu cheguei à quinta série, mostrei pela primeira vez os meus poemas para a professora de português, que ficou um final de semana com meu caderno. Na segunda-feira ela voltou, olhou pra mim super feliz: “Que bom que você escreve, é bom saber que existem meninas jovens pensando nisso”. Recebi um recado super fofo. Essa é a lembrança que eu tenho da minha quinta série, principalmente dessa professora de português porque, a partir da aprovação dela, tive mais segurança para continuar escrevendo.

Inspirando Sonhos: “Negra nua crua”, queremos saber desse seu mais novo projeto…

Mel Duarte: Tenho o projeto desse livro desde 2015. Eu lancei meu primeiro livro em 2013, “Fragmentos Dispersos”, que é um livro curto, com poesias curtas. E as pessoas me paravam na rua ou nos eventos que eu frequentava na época e me perguntavam: “Quando vai sair o próximo livro? Quero conhecer mais coisas suas, ler mais textos seus…”. E aí eu fui juntando as coisas que eu tinha escrito e fui trabalhando nesse livro. Quando eu conheci as meninas da Ijumaa (Editora Ijumaa), juntamos a fome com a vontade de comer, porque eu precisava de uma editora e uma força para produzir o livro, para me ajudar a diagramar e cuidar das questões burocráticas, me dar um ‘help’ nisso, queria que o livro tivesse ISBN pra poder distribuir nas bibliotecas e em outros lugares, porque o primeiro não teve, foi bem independente mesmo, foi bem ‘roots’.

Juntei-me com três mulheres negras que tinham as mesmas convicções que as minhas, inquietações bem semelhantes, mulheres que eu já conhecia da luta, da labuta, então foi importante fazer esse livro com elas. Tive todo o apoio necessário e é um livro que eu gosto bastante, traz muito de mim, das minhas vivências e sensações para com o mundo. O título é justamente esse, porque ele é dividido em três temas:

Negra… Traz poemas que contam mais da minha trajetória na sociedade, do que eu vejo como a mulher negra é tratada, das coisas que impulsionam, enquanto ser uma mulher negra de palavra e da periferia.

Nua… São mais poesias eróticas, sensuais, sobre relacionamentos, coisas mais sensíveis.

Crua… Traz vários tipos de questionamentos, poesias que tratam de questões espirituais, políticas e sociais. Nessa parte eu coloquei tudo para fora de uma forma até mais dura.

É um livro que tem sido bem positivo e gratificante o retorno das pessoas por conta dele. Já estamos trabalhando na segunda edição que será lançada ainda nesse ano, porque a primeira tiragem de mil exemplares já esgotou, praticamente. E eu fico feliz, porque é um trampo que eu faço de doação, indo de lugar em lugar, de evento em evento, de mão em mão, literalmente. É um ‘puta’ trampo (risos), mas é muito satisfatório, porque essa troca ninguém paga, poder estar nos lugares, fazendo meu trabalho, divulgando e tendo um retorno das pessoas.

Inspirando Sonhos: Por quais razões, na atualidade, o feminismo ainda é importante?

Confira essa e outras respostas na Parte 2 da entrevista com Mel Duarte. Clique aqui.

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