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Por Jean Mello (publicado originalmente em março de 2012)

Defesa do doutorado na Universidade de São Paulo - 1977. Créditos: Museu da Pessoa

Defesa do doutorado na Universidade de São Paulo – 1977.
Créditos: Museu da Pessoa

Acadêmico, antropólogo, professor titular da Universidade de São Paulo, Kabengele não nega suas origens. Fala do complexo com simplicidade. Raramente o ouvi mencionar os doutores que orientou, os títulos internacionais que abundam em seu currículo ou a importância de sua presença e contribuição ao movimento negro.

Uma das entrevistas mais completas quanto ao pensamento e história de Kabengele Munanga – especialista em Antropologia Africana e primeiro antropólogo a ser formado na Universidade Oficial do Congo –  é a que anuncia que o racismo brasileiro é um crime perfeito. [o texto segue após o vídeo]

Nela, revelam-se detalhes da atuação do professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, junto aos movimentos negros. Também escancaram-se as estruturas que sustentam o preconceito silencioso brasileiro. Além de trazer a tona sua vida enquanto cientista social, Kabengele relata episódios de preconceito consigo e com seus filhos, num país que até pouco tempo atrás anunciava ao mundo harmonia entre as diferentes pessoas de cores de pele distintas.

Um dos episódios de polêmica mais ácida em sua carreira foi o debate que travou, em 2009, com o geógrafo Demétrio Magnoli. Este o acusou, num artigo intitulado Monstros Tristonhos, de ser um dos líderes do projeto de racialização do Brasil. Além disso, sustentou que duas universidades federais — as de Santa Maria e São Carlos, haviam criado tribunais raciais e cancelado as matrículas de jovens mestiços.

Na réplica, Kabengele apresenta-se como alguém que milita intelectualmente para que outros negros, índios e brancos pobres tenham as mesmas oportunidades que ele. O texto foi reproduzido por uma infinidade de sites alternativos. Nele, o antropólogo sustenta que “um dos maiores problemas da nossa sociedade é o racismo, que, desde o fim do século passado, é construído com base em essencializações sócio-culturais e históricas, e não mais necessariamente com base na variante biológica ou na raça”. Considera, ainda que “não se luta contra o racismo apenas com retórica e leis repressivas, não somente com políticas macrossociais ou universalistas, mas também, e, sobretudo, com políticas focadas ou específicas em benefício das vítimas do racismo numa sociedade onde este é ainda vivo”. O debate reacendeu a polêmica em torno das cotas raciais.

No vídeo anterior e em sua continuação, a seguir, está a entrevista cedida ao programa Trajetória, da TV USP, que procura tornar público o pensamento de professores e pesquisadores da instituição, fazendo um paralelo entre vida acadêmica e pessoal.

Kabengele não nasceu no Brasil. Porém, conhecer seu pensamento e o que viveu no continente africano é valioso para enxergar melhor a complexidade e particularidades da sociedade brasileira.

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