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“(…) o artista tem um papel bom e importante na sociedade”, entrevista com Eduardo Zanchi

Eduardo Zanchi, guitarrista, professor de música e produtor musical, compartilhou sua trajetória na música com a equipe Inspirando Sonhos.

Inspirando Sonhos: Compartilhe conosco um pouco de sua trajetória artística, se for o caso, pode remontar as raízes de sua infância, intercalando com sua caminhada musical.

Primeiramente, queria agradecer muito a todo o pessoal do blog pelo carinho e pelo convite, é uma honra estar aqui batendo esse papo com vocês, fiquei muito feliz. A minha trajetória começou como algo muito comum no Brasil. Minha família é cristã, de origem evangélica. Desde criança frequentava a igreja, via o pessoal tocando, ficava ali na frente prestando atenção na bateria, na guitarra, no baixo, em quem estava cantando nos corais e nos grupos. Inevitavelmente, ficávamos expostos várias vezes por semana à música ao vivo. Então, despertei o interesse por música. Tenho um irmão mais velho, Ricardo, quase três anos mais velho do que eu, começamos a estudar juntos, tínhamos um violão, um tonante que está aqui em casa até hoje, inclusive. Eu ficava brincando, tentando fazer um acorde, umas coisas assim, aí meus familiares viram que meu irmão e eu estávamos interessados e convidaram um professor particular pra vir aqui em casa ensinar a gente e alguns vizinhos que se propuseram também, era um grupo de aulas. Foi esse o início de tudo, fomos tendo aula juntos com um professor que se tornou um amigo, uma pessoa muito especial até hoje, o Fabiano, com quem tenho contato semanalmente. Uma história muito louca, comecei a estudar, estava com nove anos de idade, alguns amigos desistiram. Meu irmão ia bem na bateria e eu na guitarra, começamos a tocar juntos na igreja, ambos com pouca idade. Ele também tocava guitarra muito bem, depois se interessou por outras áreas, começou a fazer curso de Enfermagem e se direcionou para outra profissão. Enquanto eu estava estudando violão popular dos nove aos dez anos de idade, depois dos onze aos treze estudei violão erudito, e dos treze aos dezoito estudei na Universidade Livre de Música (ULM/EMESP), me formei em Música e guitarra. Foi bem legal ter estudado lá, conheci muita gente, foi lá que conheci o Nei Medeiros que vocês entrevistaram há alguns dias, meu amigo e parceiro de banda, Ceremonya. Estudamos juntos na mesma sala, se não me engano na aula de Harmonia, trocávamos muitas ideias, mas jamais imaginaria que anos depois estaríamos lançando um disco juntos. Foi bem bacana, um tempo bem legal. Então, minha carreira começou nessa época, também fiz aulas particulares com alguns guitarristas que hoje são meus amigos, como o Joe Moghrabi, Jonas Santana, pessoas que participaram da minha caminhada. A partir dos quatorze anos comecei a dar aula, comecei a ganhar dinheiro assim, depois com dezessete comecei a tocar, fui me envolvendo com uma banda aqui, outra ali, e assim, de repente estava tão envolvido que não tinha mais tempo, nem energia para me dedicar a nenhuma outra profissão. A música foi tomando conta, nem fui eu que a escolhi, aliás, obviamente escolhi e a música foi me envolvendo, quando vi não dava pra sair mais e nem queria também. Essa foi a minha raiz. Comecei a tocar na igreja e depois fui para o mundo profissional secular e também cristão, no caso da banda Ceremonya.

Inspirando Sonhos: Quais músicos você admira?

Admiro muitos músicos, se eu parar pra pensar faria uma lista de 600 nomes. Vou falar de cabeça, dos guitarristas sou muito fã do Andy Timmons, Nuno Bettencourt. Dos guitarristas brasileiros que ouvi bastante: Juninho Afram, Edu Ardanuy, Kiko Loureiro. Eles fizeram parte dessa geração que fui ouvindo e aprendendo ouvindo o som deles. Guitarristas de jazz, gosto muito do Wes Montgomery; do Pat Metheny, um americano incrível no jazz; sou fã incondicional do Paco de Lucía, violonista falecido há pouco tempo; John McLaughlin; Al Di Meola. Desde o rock, heavy metal ao violão erudito, tenho um apreço muito grande por vários músicos, inclusive os que não são guitarristas, alguns cantores que considero especiais, bateristas, baixistas, pianistas, músicos que fazem música de uma maneira especial e única, tem muita gente que admiro. No geral, admiro todo músico que consegue extrair personalidade e amor do seu instrumento.

Inspirando Sonhos: Como foi sua trajetória na banda Ceremonya, desde sua entrada na banda, considerando a lendária experiência da indicação ao Grammy Latino até o anúncio do encerramento das atividades?

Com o Ceremonya foi alguns anos após ter estudado com o Nei, cheguei a fazer um trabalho em São Paulo, onde conheci o guitarrista Gustavo Dübbern. Acabamos tendo contato, mas não tinha nada a ver com o Ceremonya. Anos depois, eles resolveram ter outro guitarrista na banda, para dar mais peso, ter mais opção, colocar violão, mais faixas, mais linhas de guitarra ao vivo, então, me convidaram para fazer um ensaio com eles, trocar uma ideia, sentar, bater um papo e ver se a gente alinhava alguma ideia juntos. Ensaiamos juntos em São Paulo no Black Box, que passou a ser nosso estúdio oficial. Aprendi as músicas, nos conectamos e fluiu muito bem. Dali pra frente, comecei a fazer alguns shows em Brasília, Paraná, São Paulo. Algum tempo depois surgiu o convite para entrar oficialmente na banda porque até então estava como músico de apoio. Começamos a pré-produção do álbum A vida num segundo, uma pré-produção superlonga, cansativa, muito custosa emocionalmente e fisicamente. Foram oito meses dentro estúdio gravando, conversando, discutindo, em alguns momentos brigando (risos), brincadeiras à parte. Mas, realmente, fazendo de tudo para que o melhor acontecesse. Dois membros da banda saíram nessa fase de pré-produção, foi bem difícil, teve momento em que tivemos de voltar para a estaca zero e começar tudo de novo, achamos que dali não iríamos mais conseguir terminar o trabalho. Foi muito suor, sangue, envolvimento emocional de todo mundo, por isso que esse disco certamente é um bebê para todos nós. Compusemos as músicas, fizemos os arranjos juntos e gravamos por algumas semanas no estúdio das Paulinas-COMEP, em São Paulo. Logo nas primeiras doze horas, o disco já estava no Top 50 do iTunes entre os mais baixados. Tivemos indicações para o Troféu Louvemos 2017, todos os músicos tiveram indicações individuais, chegamos a ganhar como melhor álbum de rock do ano. Houve um período em que o Danilo Lopes e eu fomos à Curitiba para cumprir uma agenda de entrevistas, lembro que eram quinze compromissos em dois dias. Cumprimos uma agenda de entrevistas, pocket show, bate-papo na tevê, rádio. No intervalo de um desses compromissos recebemos ligação da gravadora, o Danilo atendeu e ficou me olhando de boca aberta, desligou e disse: – “Zanchi, a gente acabou de ser indicado ao Grammy Latino!”. Foi surreal, até hoje não caiu a ficha. A gente trabalhou muito duro nesse disco, tentamos dar o nosso melhor em situações bem adversas, superamos e fizemos o melhor que podíamos juntos como um time. Nós temos demais a agradecer ao Pompeu e ao Heros Trench, nossos produtores, ambos do Korzus. Marcello Pompeu desempenhou um trabalho com a gente de amigo, irmão, psicólogo nos piores momentos da banda, um músico e produtor excepcional, um amigo que ficou. Devemos muito desse trabalho a ele, a indicação ao Grammy também. Fui para Las Vegas representar a banda, que ficou em São Paulo para cumprir a agenda de shows. Foi incrível, uma experiência surreal de dever cumprido em relação à banda e ao disco. De repente, estava ali andando no tapete vermelho do Grammy Latino… Eu andando, pessoas como a Jennifer Lopez andando ali simultaneamente, Laura Pausini, os maiores artistas de expressão do planeta, em posições iguais como indicados, foi demais, pessoalmente e profissionalmente, mantive a linha (risos). Uma experiência boa que me fez entender que valeu a pena o trabalho. Infelizmente, depois disso a banda acabou, mas saí antes da banda acabar, já estava com a intenção de me mudar para os Estados Unidos. Uns dois ou três meses depois, a banda acabou decidindo encerrar as atividades. Esse disco trouxe uma experiência muito boa pra vida profissional e pessoal de cada um de nós. E não dá pra deixar de citar o respaldo dos fãs, a gente ouve repetidamente que foi o melhor álbum da banda, praticamente unânime, inclusive de membros da banda. Os shows que fizemos em São Paulo, Brasília, Minas Gerais, Paraná, Goiás, de repente víamos o pessoal cantando as músicas do começo ao fim, ficávamos impressionados. Foi algo muito bom e maravilhoso! O carinho das pessoas que ouviram e se sentiram bem, tocadas de alguma forma com a música que a gente fez é a parte mais importante desse projeto. Tenho amigos que fiz da época da banda e que permanecem até hoje. Ah, preciso destacar algo que aconteceu depois do Grammy Latino. Rolou o convite para eu entrar na The Academy of Recording Arts & Sciences, Academia Latina da Gravação, em que me tornei membro votante, desde 2016. Tecnicamente, depois do convite, oficialmente sou uma das pessoas que fazem parte da bancada de pessoas que escolhem os artistas que serão indicados e quem serão os vencedores dentro desses indicados. Faço parte desse processo todo que é bem longo, durante meses e é muito trabalhoso. Nesse ano, infelizmente, não consegui me dedicar ao Grammy Latino de 2018 como consegui no ano anterior, mas é um processo bem legal e uma honra fazer parte de uma situação em que alguns dos maiores artistas do globo são indicados. Fazer parte desse grupo de músicos espalhados pelo mundo, que tem voz e voto na mesa, é uma honra bastante grande para um rapazinho do interior de Terra Rica no Paraná que só queria tocar um pouquinho de violão.

Créditos: Ethan Miller

Inspirando Sonhos: Você é um guitarrista que além de ter bastante cuidado com a técnica e com amplo repertório para colocar a alma no instrumento, também valoriza bastante os timbres. Pode comentar sobre isso? Como valorizou isso nas gravações de suas guitarras e composições na banda Ceremonya?

Muito obrigado pelos elogios, agradeço de coração. Com relação ao timbre, uma coisa tento aplicar pra mim, o timbre real de um guitarrista, de um violonista vem da ponta do dedo, vem da alma. Falo de uma forma real, a forma como você toca e movimenta seus dedos ali num vibrato, por exemplo; como faz um bend; conecta; palheta; as formas como você faz tapping, efeitos, harmônicos; o jeito como você toca tem um sotaque, é como o falar um idioma. Esse sotaque identifica você de outras pessoas. Muitas pessoas podem nascer em um mesmo lugar e ter sotaques diferentes, influências diferentes. Acredito que o timbre, principalmente, vem de você, da sua mão. Você pega uma Gibson vai soar você mesmo; uma Strato, da mesma forma; uma 335; um violão de nylon vai soar você mesmo. Eu valorizo isso e sempre tentei, espero ter conseguido, mas sempre tentei adicionar uma personalidade na minha forma de tocar e não dar tanta atenção a equipamentos. Dou atenção a equipamentos, gosto muito disso, mas não sou um geek, um gênio, um nerd do assunto. Gosto de utilizar hack de efeitos, o que eu mais tive e menos usei na vida foi JMP-1 da Marshall, que é antigo, lendário e usado até hoje no mundo inteiro. Gosto muito de pedais também, de espetar direto no amplificador, sem efeito, então, gosto muito da coisa orgânica pra ser sincero, apesar de gostar de processadores como hacks, pedaleiras. Acho que cada situação pede uma abordagem diferente, ainda mais para o músico que precisa tocar estilos diferentes, timbres diversos. Mas o principal vem da ponta do dedo, da sensibilidade de tirar o timbre que você quer. Se você não soar bem com um violão de nylon ou de aço na mão, não vai soar bem com a melhor Gibson, o melhor pedal e o melhor amplificador. Nas gravações do Ceremonya utilizei equipamentos bem simples, alguns overdubs de delay, de chorus. No geral, tocamos em um TriAxis – MESA/Boogie, do Gustavo Dübbern, diga-se de passagem. Usamos um timbre maravilhoso espetado numa caixa 1960 da Marshall, realmente deu um som que a gente amou. Usamos para bases: uma Gibson Les Paul, também do Gustavo; uma Gibson Midtown, cedida para a gravação; uma Fender Telecaster que foi minha e hoje não tenho mais; uma Ibanez Jem, daquela verde tradicional, cedida gentilmente pelo Paulo da Banda Eterna, um artista de corpo e alma, músico e artista plástico excelente. Também usamos um violão Martin, alguns pedais, basicamente foi isso. Tentamos ser o mais simples possível, o Gustavo também, temos um pensamento de tocar mais orgânico, com uma guitarra boa e amplificador bom. Se isso estiver bom, o resto é consequência. Vamos comparar com comida, se o arroz e o feijão estiverem bons, o resto não vai fazer tanta diferença assim.

Inspirando Sonhos: Quais sonhos você tinha logo no início de seu engajamento na música e que já foram alcançados? E quais busca alcançar?

Pra ser sincero, quando comecei não tinha muitos sonhos. Queria aprender a tocar, basicamente, copiar aquilo que via e que as pessoas que eu gostava faziam. Mas depois surgiram sonhos de tocar pra muita gente, deixar um legado, gravar algo que toca as pessoas, algo que tenha um valor artístico. Graças a Deus, nesses pontos consegui me realizar, com todas as dificuldades que existem em ser músico no Brasil, o que é superdifícil. Uma frase que gosto de dizer e citei numa entrevista antiga: – “Infelizmente, o Brasil é um país onde um ex-BBB é infinitamente mais prestigiado do que um artista”. Acredito que sempre vai ser assim. E não é uma síndrome de vira-lata porque acho que o Brasil é maravilhoso, isso acontece com o ser humano em todos os países. Agora sobre quais busco alcançar, pra ser sincero, estou em um momento de pausa, inclusive algo que estou trabalhando no momento, pausa artística, pausa em diversos assuntos e também na minha vida pessoal. Nesse momento, não estou buscando nenhum projeto, tenho coisas em mente, convites para que as coisas aconteçam, mas não tenho nenhum projeto encaminhado que vá de encontro a alguma agenda.

Créditos: George Gargiulo

Inspirando Sonhos: Qual é seu livro preferido? Pode discorrer um pouco sobre ele para que mais pessoas conheçam?

O livro que me vem à mente é o livro que mais gosto, Lang Lang – Uma jornada de mil milhas – Minha história, conta a história e a biografia de Lang Lang, um pianista incrível, artista dedicado que faz um trabalho no piano praticamente impossível de ser feito. Esse livro conta a história dele desde pequeno, sua dedicação à música até o momento em que ele entra numa espiral de perder o prazer de tocar. Muitos músicos passam e me identifiquei muito com isso, pois aconteceu comigo, se não tomar cuidado pode ser constante na vida de um músico que lida com isso profissionalmente. Essa história narra coisas absurdas que aconteceram com ele, que fizeram com que ele perdesse o prazer de tocar e, aos poucos, ele foi recobrando e reavendo esse prazer de voltar a tocar piano e fazer música. Vale a pena as pessoas lerem, sejam músicos, musicistas ou não.

Inspirando Sonhos: Qual filme considera importante indicar? Pode discorrer um pouco sobre ele?

O único filme que eu indicaria é o meu filme predileto, não tem nada a ver com música, chama-se Meu Nome é Rádio. Protagonizado por Cuba Gooding Jr, um ator incrível, o filme trata de uma história real sobre um jovem com problemas mentais que era desprezado por muitas pessoas e sofria bullying na escola. De repente, encontra uma pessoa que esteve do lado dele e o amou de verdade, cuidou dele até o fim, uma história de um filme que sempre me tocou por ser real e um filme tão bem feito, uma história de altruísmo, dedicação ao próximo. Indicaria a todos assistirem.

Inspirando Sonhos: Que sentidos você atribui à palavra artista?

É uma pergunta bastante difícil de responder, mas vários sentidos podem ser atribuídos à palavra artista. Pode ser um diminuidor de dor, um agente de entretenimento, um prestador de serviços, um autoinibidor de dor, no caso de pessoas que tocam pra se sentir melhor, o que não é o meu caso. Em muitos casos, quando a pessoa não está bem, ao tocar se sentem piores. Acredito que esses casos sejam mais comuns, por incrível que pareça. À palavra artista se pode atribuir muita coisa, no geral é fazer arte. Uma coisa que me incomoda muito e que eu não gosto são artistas se promovendo politicamente, se promover artisticamente por conta de viés político, usando isso como máquina para alavancar suas carreiras para benefício próprio e se esquecendo da nação. No mais, acho que o artista tem um papel bom e importante na sociedade.

Imagem de destaque: Maurício Noro

Pedal para Guitarra Compressor The Bends FENDER

1 Comentário

  • Mauro Jr Posted 16 de fevereiro de 2019 12:33

    Excelente!
    Parabéns pelo capricho na postura profissional de sempre!
    Forte abraço meu amigo!
    Saudades.

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