Alimente sua alma. Inspire Sonhos!
Telefone
E o sonho tornou-se realidade

Por Vasco M. N. Pereira

Minha querida amiga Ana Luísa Ramos, cantora de profissão, mandou-me uma mensagem a pedir-me que escrevesse um texto sobre a minha actividade musical. Confesso que não sou escritor, nem tenho apetência para tal, mas a um pedido de uma amiga ou amigo nunca se diz que não. Tão pouco a minha actividade musical é assim tão importante e cheia. Mas aqui vai.

Nasci em Lisboa, lá para os lados de Campolide, bairro típico da capital portuguesa, na Freguesia de São Sebastião da Pedreira, Rua Dom João Carlos de Mascarenhas, 3º Andar, creio que no número 70. O prédio era cor-de-rosa. (Com a nova reforma territorial, a freguesia já não pertence mais a Campolide).

Minha mãe dizia que era um dia de inverno muito, muito frio. E nasci cedo: eram 8 horas e 10 minutos da manhã. Foi um parto complicado. Era fim de ano, dia 31 de Dezembro. Corria o ano de 1956.

Nasci p’ra música por volta dos meus três anos. Melhor, ela veio ter comigo. Não a chamei. Ela encontrou-me num restaurante em Lisboa, cidade onde residíamos na direcção antes indicada. Havia lá um piano. “Aquilo” despertou-me atenção. E lá fui, como “bom” rapazinho que era, dar umas “dedadas” no teclado. Pouco mais alto era que o teclado. Ninguém me interrompeu. Fui deixado ali a fazer “plim, plim”, mas sempre sob o olhar atento de minha mãe, que eu era muito dado a corridas repentinas e consequentes desaparecimentos, para aflição e angústia dos meus pais. E a música ficou por ali. De quando em vez, lá pareciam uns tambores, uma gaita de “beços”, como se chamava à harmónica. “De beços”, regionalismo alentejano, o mesmo que beiços, por contraposição à gaita-de-foles. E através de um rádio que já tinha gira-discos! Ainda não existia a RTP tal como a conhecemos hoje. Estava a dar os primeiros passos em Portugal. Era ainda o tempo das novelas radiofónicas na Emissora Nacional.

No mesmo ano em que nasci, nasceu a televisão em Portugal. Só a partir do ano de 1962 é que se começou a generalizar mais a tv pelas casas dos portugueses. Quem queria ver televisão, ia às sociedades recreativas e aos cafés, que eram os únicos que tinham televisão.

O meu contacto directo e sentido com a música chegou mais tarde. Já existia uma televisão lá em casa a preto e branco, pois claro. Era o ano de 1962.

No ano seguinte, 1963, os meus pais decidem ir viver para Campo Maior, no Alentejo, donde era natural a minha mãe. O meu era minhoto, de Vieira do Minho.

Era a época do “Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos”. Na RTP, passava aos domingos à tarde uma rubrica intitulada “Matinée de Domingo”, creio recordar. Passavam os filmes permitidos e tolerados por um regime tão a preto e branco como a minha televisão. Num desses filmes, não recordo o título, estava um senhor sentado ao piano a escrever música. Tinha eu já oito anos.  O senhor sentado ao piano era Cole Porter ou George Gershwin. Um dos dois era. Voltei-me para a minha mãe e disse-lhe: “Mãe! Eu quero fazer isto. Escrever música sentado ao piano”. Ela assentiu com a cabeça e mais não disse.

A minha mãe que gostava imenso de música, achou por bem que eu fosse receber algumas aulas de piano com uma professora que existia em Campo Maior. Chamava-se a senhora, Maria Amélia Dias. E foi com ela que eu iniciei a minha aventura musical. Decorria o ano de 1964.

Como não havia muitas possibilidades económicas, tive que esperar até conseguir entrar num conservatório. O primeiro foi na Covilhã, cidade Beirã junto à Serra da Estrela e capital das fábricas de lanifícios. Aí fiz três anos num só.

Depois e por só por mero acaso é que transitei para Espanha.

Fui com os meus pais a Badajoz num dia de férias de Carnaval. Campo Maior está a apenas quinze minutos de Badajoz. Ambas as terras são consideradas raianas para nós e “rayanas” para eles.

Passava numa rua e escutei um piano. Timidamente, quase como que envergonhada, estava uma placa doirada na parede que dizia: Conservatorio Elemental de Música de Badajoz. Era a década de 70. O ano, talvez o de 1976 ou 1977. Também podia ser o de 78 ou 79. Não recordo bem. Entrei. A porta era larga e alta, em madeira, daquelas antigas, que dava para um átrio em pedra mármore branca. À esquerda, ficava uma escadaria, também ela de mármore. Subi. O conservatório ficava na primeira porta à esquerda. Empurrei a porta e dirigi-me a primeira pessoa que encontrei. Era um funcionário. Chamava-se António. Falámos, eu ainda num “portunhol”, levando-me de seguida ao secretário. (Os conservatórios em Espanha estão organizados da seguinte maneira: Director/a, Vice-Director, Secretário/a, Chefe de Estudos, Tesoureiro).

Expliquei o que queria. Deram-me um papel para preencher e que voltasse em setembro para fazer a matrícula. Era o primeiro aluno estrangeiro do conservatório! Apesar de ter a maioridade em Portugal, ainda era menor em Espanha. O meu pai teve de assinar como encarregado de educação.

A partir daí, fiz mais dois anos num, a seguir mais outros dois…

Necessitava de ter um piano para estudar em casa. Fui trabalhar. Comecei a dar umas aulas numa escola pública, a única que tinha a disciplina de música. Chamavam-lhe e chamam ainda, Educação Musical. Continuei a estudar e a trabalhar em simultâneo. Como era e foi difícil! Foi duro, muito duro mesmo! Mas lá fui fazendo um ano trás outro.

Cheguei ao curso superior. Continuando sempre a leccionar, claro.

Agora, já o conservatório me parecia mais acolhedor e agradável. Já estudava o que eu queria: a escrita e encadeamento de acordes, escalas… Era a Harmonia! Logo, logo, estudaria Contraponto, Fuga, Composição e Instrumentação, Orquestração… E seria compositor. Pensava eu.

Lá terminei toda a carreira musical em 1990. Mas queria mais.

Inicío um divertimento orquestral: Lusitânia. A minha primeira obra. Tardei seis meses a escrevê-la e a passá-la a limpo. Os computadores e a informática musical eram ainda uma miragem.

Terminado o conservatório em Badajoz, decidi estudar Canto Gregoriano. Comecei com o então director do conservatório de Badajoz, D. Carmelo Solís, que me mandou estudar com o professor Ismael Fernandez de la Cuesta. E fui até Madrid para o Real Conservatorio Superior de Música.

Chegado a Madrid para me matricular em Canto Gregoriano, não sem antes ter falado com o professor Ismael Fernández de la Cuesta. Fez-me muitas perguntas. Umas mais pessoais, outras para saber o que pretendia, outras ainda para testar meus conhecimentos musicais e históricos. Devo ter-me saído bem, pois deu-me o seu consentimento para integrar a sua aula superlotada.

No vidro da secretaría estava anunciado o exame de admissão para a disciplina de direcção de orquestra e coros. Perguntei se podia matricular-me para fazer o exame. Deixaram-me matricular. Confesso que tive o empenho e a ajuda do director do conservatório que era “extremeño”, tal como os meus estudos. Anos mais tarde partilhámos palco com estreias de obras. Coisas da vida.

No dia seguinte lá fui fazer o exame. Éramos mais de 30 examinandos numa sala enorme para 6 vagas. Fiquei aprovado.

Nova caminhada e ainda mais dura: quase 1000 km de carro ida e volta, para ter aulas numa só manhã.

Terminei o conservatório. Deu-me muito trabalho. Sacrifiquei muita coisa. Estou e sou feliz.

Em 1996 fundei a Orquestra Luso-Espanhola, para ajudar jovens estudantes de um lado e outro da raia. Este projecto durou até 2006.

Apareceu a “www”. O mundo fica bem pequeno, mais próximo. Está tudo ou quase tudo à distância de um “click”. E a informática musical permite escrever música sem usar o papel e o lápis.

Continuam as dificuldades para estrear, apresentar os meus trabalhos. Ainda que os meus trabalhos lá vão aparecendo entre a “Asociación de Compositores Extremeños” e alguns amigos.

Em 2009, o quinteto de sopro italiano “I Cinque Elementi – Wind Ensemble” de Pádoa, Itália, encomenda-me um quinteto: Os 5 Elementos, que estreou em Graves – Bordeaux, França. Foi a primeira obra a ser tocada fora da Península Ibérica.

Daí até hoje, muitos contactos e amizades fiz. Também muitos concertos, estreias e ensaios de horas seguidas. Muitas horas a escrever, a estudar… A ler partituras… A escutar música…

Chegou o YouTube. E o Facebook. E a montra para novos contactos e grandes amizades abriu-se ainda mais.

Mas tem de se continuar a estudar, a ler, a escrever, a ler partituras e a escutar música… A contactar…

Um dos meus professores de piano, o genial Estebán Sánchez, quando lhe perguntei o que era preciso para se ser bom músico, disse-me: “Para se ser um músico, necessitas de três coisas: primeiro trabalhar, segundo trabalhar e terceiro, trabalhar ainda mais”. Para corroborar esta frase, vi há tempos um vídeo de um professor de trompete que dizia aos seus alunos:

– “Temos de estar preparados sempre, principalmente se não estás a tocar em algum lado. Há que estudar todos os dias o repertório de trompete e fazer escalas, harpejos, staccatos, legatos, trabalhar as dinâmicas. Nunca se sabe quando te chamarão. E depois não podes dizer que tens de estudar. Tens de chegar e tocar. Quem te contratar não quer esperar”.

Campo Maior, 22 de Dezembro de 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

Adicionar Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios são marcados *