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Conversa com a editora e escritora Márcia Leite

A literatura é a necessária arte da humanização. Uma vez descoberta, torna-se uma necessidade, um conforto, um porto seguro.

Como você descreveria o perfil editorial da Pulo do Gato?

Como profissionais envolvidos com a cultura do livro e da infância, Leonardo Chianca e eu sempre tivemos como princípio norteador a construção de um projeto editorial baseado na qualidade literária e estética dos livros para crianças e jovens leitores. Quase seis anos depois, perseguimos a mesma convicção: nossos leitores merecem o melhor cardápio literário. E, como leitores críticos precisam de formadores comprometidos, também publicamos uma coleção de livros sobre leitura, literatura e mediação, que é a Gato Letrado. Entendemos que os editores também fazem parte da cadeia formadora de leitores. Assim, preferimos publicar obras que transformem em vez das que acomodem. Livros que possam fazer diferença no repertório do leitor.

E que critérios vocês utilizam na hora de escolher os títulos para o catálogo da Pulo do Gato?

Procuramos analisar as características estéticas e literárias de cada livro, considerando a diversidade de estilos de seus autores e ilustradores, a variedade de linguagens, o tratamento e a originalidade na abordagem dos temas, a qualidade artística dos projetos visuais, dos formatos… Desejamos que cada livro seja uma experiência única e diversa de leitura, e que não se esgote ao chegar à última página; ao contrário, queremos que convide a novas e novas leituras, levando sempre a novas descobertas.

Como mãe e educadora, você acredita que ler para crianças é oferecer mais do que uma simples história?

Sem dúvida, trata-se de um momento especial e possivelmente inesquecível de convivência, de aconchego, de intimidade, de partilha, e, por esse motivo, cria e fortalece o vínculo afetivo e de confiança entre pais e filhos, entre professores e alunos, entre adultos e crianças. Algo que se aproxima do ninar, do embalar, do pegar no colo, do acariciar. Mesmo que a criança não tenha idade para compreender o sentido do texto, ainda assim ela conseguirá ser afetada pela percepção e pelas sensações provocadas durante essa vivência. Enquanto ouve a história, a criança também “lê” o adulto, suas expressões faciais, suas entonações, o ritmo, o tom da voz, as paradas de respiração. Leitura e construção de laços de afeto andam de mãos dadas na primeira infância e prosseguem assim nos outros períodos da vida quando bem cultivados.

Além dos vínculos socioafetivos, a leitura literária favorece o desenvolvimento cognitivo?

Naturalmente, assim como o brincar é uma experiência insubstituível para o desenvolvimento cognitivo da criança, ouvir e ler histórias também significa dar a ela novas oportunidades para se desenvolver com base em estímulos provocados pelas linguagens verbal e visual presentes no livro: o diálogo entre o literário e o estético. Dessa forma, enquanto está ouvindo uma história, a imaginação da criança é acionada e mobilizada a criar suas próprias imagens sensórias e visuais dos personagens, dos cenários, dos acontecimentos, o que virá a fortalecer futuramente sua capacidade de compreensão, sua visão de mundo e sua produção de linguagens oral e escrita. A leitura literária também possibilita a expansão das linguagens verbais e visuais. Uma vez apresentadas, exploradas e revisitadas, as novas linguagens acabam por se incorporar à memória linguística, estética e afetiva da criança, podendo ser acionadas e experimentadas por ela em diferentes situações.

“Harvey – Como me tornei invisível”, de Hervé Bouchard e Janice Nadeau – Editora Pulo do Gato

Além da diversidade de linguagens, alguns livros da Pulo do Gato apresentam diversidade de temas, alguns deles delicados e complexos, como perda, superação, refúgio, adaptação, conflitos sociais, guerra…

Sim, essa é uma preocupação nossa: contemplar temas que abordem a condição humana. Se considerarmos que a narrativa ficcional é uma necessidade humana de viver uma espécie de “ensaio de vida”, seja ele de perda, de conquistas, de descobertas, de deslumbramentos, de aprendizagem, de angústias, de dúvidas, acho que poderemos afirmar que a literatura para crianças e jovens (na verdade, para qualquer leitor), na escola e fora dela, favorece a construção dos processos de autoconhecimento e de empatia – conhecer melhor a si mesmo e ao outro, colocar-se no lugar de alguém diferente, pensar o mundo com várias lentes, por vários pontos de vista, sem precisar sair do lugar. Para nós, a literatura é a arte da empatia e da humanização.

É comum escolas e famílias resistirem à leitura de livros que abordam assuntos considerados “controversos”?

Observamos que a resistência aos livros de “assuntos difíceis ou controversos” se deve, em grande parte, à não percepção dos adultos de que as crianças já habitam o mesmo mundo que eles. Crianças e adultos são contemporâneos. Não falar com elas sobre alguns assuntos, não significa que estes não existem ou que são invisíveis para as crianças, mas pode sinalizar pouca disponibilidade para a escuta e para o diálogo. Não dar ouvidos às curiosidades, inquietações e conflitos dos pequenos leitores não faz com que eles não sofram ou se angustiem com o que não conseguem entender ou nomear. Acreditamos que os livros são bons disparadores para conversas e descobertas. Sem contar que podem ser um bom acolchoado para que o leitor não caia sem proteção sobre determinado tema. Bons livros ajudam a amortecer o contato com os temas que machucam. E sempre vale lembrar que os adultos também se debruçaram sobre essa mesma preocupação: os autores (escritores e ilustradores) e os editores. Um livro sempre é produto de muito cuidado por parte dos seus criadores e profissionais envolvidos em sua produção e edição para que esteja adequado à infância.

E o “mito” de que a criança é como uma esponja, que absorve acriticamente tudo a que é exposta?

Em 30 anos como educadora e escritora, posso afirmar que os pequenos leitores não são apáticos nem interagem com o livro sem questionamentos, como quem segue uma lição de comportamento. A literatura não é uma droga aliciante e a leitura nunca é passiva. Elas implicam parceria, curiosidade, posicionamento. E, na escola, envolvem também a presença cuidadosa do mediador, aquele que se coloca ao lado do livro e do leitor para facilitar reflexões e descobertas. O leitor tem sempre as rédeas para interromper ou prosseguir a leitura. E é isso que as crianças fazem quando não se interessam pelo tema ou não têm condições emocionais para lidar com ele. Desistem e cuidam de pensar ou fazer outras coisas.

Criança leitora será adulto leitor?

Desde a infância, gostamos de viver “de mentirinha” outras vidas, sejam elas histórias de conquistas, de descobertas, de deslumbramentos, de aprendizagem, de angústias, de dúvidas, de medo… Portanto, é de se esperar que quem teve a oportunidade de conviver com muitas histórias e construiu intimidade e prazer com a leitura, durante a infância, terá mais chances de descobrir, ou redescobrir na idade adulta, que os livros podem ajudar a tornar a vida mais compreensível, menos desconhecida, mais suportável e possível. A literatura é a necessária arte da humanização. Uma vez descoberta, torna-se uma necessidade, um conforto, um porto seguro. É nisso que acreditamos. E tentamos fazer de nosso catálogo um convite a essas aproximações. Livros são sempre pontes, nunca muralhas.

Márcia Leite é escritora de livros de literatura para crianças e jovens com mais de 40 títulos publicados, muitos deles premiados e integrantes de programas governamentais e institucionais. Sócia-fundadora da Editora Pulo do Gato, juntamente com o editor e escritor Leonardo Chianca, atua como Diretora Editorial e Consultora Pedagógica da Pulo na Escola. Educadora com mais de 30 anos de prática na sala de aula e na formação de professores na área de Língua Portuguesa, atua hoje na formação de leitores e de educadores, ministrando cursos, oficinas e palestras.

Fonte: Catálogo da Editora Pulo do Gato 2017/2018

Créditos imagem de destaque: Rosa Maria Miguel Fontes

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