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Cartas lançadas a um oceano fora do tempo

Por Regina Dalcastagnè

Para Maria Clara Machado, que foi ponte.

A escrita também pode ser lugar de espera, carta lançada ao mar que talvez nunca chegue ao seu destino, daí encontros que só acontecem assim, aninhados no papel (ou na tela do computador) e na vontade de um terceiro, que escreve. É quando o discurso deixa de ser ferramenta de convencimento do outro e passa a ser guarida, superfície que acolhe e se entrega como possibilidade. Que este seja, então, espaço para um encontro que nunca houve: entre as escritoras Carolina Maria de Jesus (1914-1977) e Françoise Ega (1920-1976), uma martiniquense que emigrou para a França durante a Segunda Guerra Mundial. Não tenho intenção de fazer um trabalho comparativo entre duas autoras negras, pobres e exploradas que lutaram bravamente por seu lugar no mundo – e no campo literário. Pretendo apenas juntar duas vozes que, acredito, teriam se alegrado ao se tocar, e convidar outras pessoas a participar desse diálogo.

Quando publicou seu Quarto de despejo, em 1960, Carolina Maria de Jesus certamente não tinha ideia de quantas vidas iria atingir, não só no Brasil, mas em diferentes países, com sua narrativa. Gente que, como ela, não entrou no mundo pela sala de visitas, mas pelo quintal. Conceição Evaristo conta, em entrevista, do desejo de escrita que surge em sua mãe, também empregada doméstica, a partir do contato com o texto da autora: “Nas páginas da outra favelada nós nos encontrávamos. Conhecíamos, como Carolina, a aflição da fome. E daí ela percebeu que podia escrever como a outra, porque ela era também a Outra… São lindos os originais de minha mãe, caderninhos velhos, folhas faltando, exteriorizando a pobreza em que vivíamos. Ali, para além de suas carências, ela se valeu da magia da escrita e tentou, como Carolina, manipular as armas próprias do sujeito alfabetizado”.

Escrever, especialmente para aqueles que adquiriram recentemente essa capacidade, parece ser uma maneira de reafirmar sua presença no mundo. Colocar-se em palavras seria, nesse caso, uma forma de participar de uma coletividade marcada pela escrita e, ao mesmo tempo, ser reconhecido como indivíduo, portanto, único. Como bem mostra a repercussão da obra de Carolina Maria de Jesus, é também um modo de alcançar o outro e compartilhar experiências que costumam ser invisibilizadas nos mais diferentes discursos e espaços sociais. A potência revolucionária da escrita reside no seu convite implícito para que leitores se transformem em novos produtores, como defendia Walter Benjamin.

Françoise Ega já não era uma jovenzinha quando leu um resumo de Quarto de despejo na revista Paris Match – seu único luxo de empregada doméstica em Marselha –, enquanto ia de ônibus para o trabalho. Era uma mulher experiente de 40 anos, tinha atuação política em sua comunidade, cinco filhos pequenos para criar e nenhum tempo livre. Tocada pelo que sentiu ser uma experiência comum entre os seus, resolveu escrever um livro como uma carta a uma mulher que nunca veria e que, sabia bem, jamais a leria. Lettres a une noire (Cartas a uma negra), que começou a ser produzido em 1962 e só foi publicado em 1978, após a sua morte (e a de Carolina Maria de Jesus), é um impressionante apelo à compreensão de sua própria existência e do desespero de outras imigrantes em condições ainda piores do que as dela.

Assim como Dona Joana, a mãe de Conceição Evaristo, Françoise Ega se reconhece na escrita de Carolina, lembrando que “as misérias dos pobres do mundo inteiro se parecem como irmãs”. Por isso decide começar esse livro, para evitar que essas histórias de vida fossem apagadas, como tantas outras. Mas segue fazendo-o por uma necessidade própria, como se usasse o “diálogo” estabelecido para refletir sobre sua escrita e, de algum modo, aplacar sua angústia. Seus filhos riem de seu esforço, seu marido debocha de sua presunção. Ela mesma chega a duvidar do que está fazendo, mas prossegue:

Faz um mês que parei de escrever, de falar com você, Carolina, porque meu primogênito riu, ele me disse com sua lógica infantil que era ridículo escrever a uma pessoa que jamais me lerá. Eu sei, eu repito isso para mim em um sussurro, mas ele me disse em alto e bom som, tanto que seus irmãos repetiram em coro: “Tá! Por que você diz coisas a Carolina? Ela não fala francês”. Nós não falamos a mesma língua, é verdade, mas o idioma do nosso coração é o mesmo e é bom se encontrar em algum lugar, onde nossas almas se juntem. Hoje, eu retomei minha serenidade e converso com você, eu me sinto tranquila.

Do outro lado do oceano, Carolina Maria de Jesus poderia responder: “Hoje eu estou com frio. Frio interno e externo. Eu estava sentada ao sol escrevendo e supliquei, oh meu Deus!, preciso de voz”.

O livro é concebido como um conjunto de cartas, todas datadas, sendo que a primeira é de maio de 1962 e a última de 23 de junho de 1964. (Lembro que Quarto de despejo, que tem a estrutura de um diário, começa em 15 de julho de 1955 e termina em 1º de janeiro de 1960.) As cartas, que algumas vezes são tão curtas quanto bilhetes, vão adquirindo outros matizes ao longo do livro: poderiam ser páginas de um diário, ou breves crônicas, mas alcançam, de qualquer modo, unidade narrativa. E ganham força ao incluir outras personagens – faxineiras e empregadas domésticas, mas especialmente patroas e seus filhos mimados. Afinal, é na relação entre patrões e empregadas que vemos aflorar as tensões e o preconceito. Como quando, no auge do verão em Marselha, em seu apartamento fechado e sufocante, uma francesa estranha o fato de sua faxineira antilhana reclamar do calor ali dentro: “Apoiada em minha vassoura, eu falei da imensa sombra proporcionada pelas mangueiras, do frescor trazido pelos ventos alísios e das janelas abertas para acolhê-lo, de persianas aspirando o ar, de rios, de banhos de mar”.

A resposta saudosa de Ega, que não esconde uma ponta de indignação – completada com o relato a Carolina sobre o mau cheiro dos quartos fechados e do quão exóticas as patroas podem ser –, toma novas formas ao longo da narrativa, mas, muitas vezes, não passa de silêncio amargo, que reverbera depois, no texto. É o que acontece, por exemplo, quando ela conta da patroa que decide chamá-la de Renée, o nome da empregada afastada que ela está substituindo, porque prefere não mudar seus hábitos. O livro, assim, não deixa de ser também um retrato da elite francesa: pessoas mesquinhas, exploradoras, com hábitos retrógrados e um tanto estúpidas. Afinal, não é a França vislumbrada por intelectuais e turistas na Rive Gauche, mas aquela vista a partir da entrada de serviço, por sobre o cabo da vassoura e do esfregão. Como em toda a obra de Carolina Maria de Jesus, mas, especialmente, em Diário de Bitita, em que ela mostra a cara – deformada pelos séculos de escravidão – da elite brasileira:

Se o filho do patrão espancasse o filho da cozinheira, ela não podia reclamar para não perder o emprego. Mas se a cozinheira tinha filha, pobre negrinha! O filho da patroa a utilizaria para o seu noviciado sexual. Meninas que ainda estavam pensando nas bonecas, nas cirandas e cirandinhas eram brutalizadas pelos filhos do senhor Pereira, Moreira, Oliveira e outros porqueiras que vieram do além-mar.

Ao contrário de Carolina Maria de Jesus, que abandonou o trabalho doméstico – preferindo a precariedade maior da coleta e venda de material reciclável, nos termos de hoje – para poder ter tempo para a escrita, Françoise Ega (que era casada e possuía uma situação financeira muito mais estável) começou a trabalhar como faxineira para entender melhor as dificuldades de jovens imigrantes que ela auxiliava em sua comunidade. Não se tratava, é claro, de algum tipo de experiência antropológica, nem de uma imersão com objetivos literários. Sua escrita e seu trabalho, ao que parece, andavam juntos. Ela, com o primário completo e um curso de datilografia, podia tentar emprego em algum escritório, como seu marido insistia de vez em quando, mas o relato feito a Carolina diz outra coisa: “Eu tinha lido em um jornal que precisavam de uma datilógrafa para uma substituição. Eu me apresentei, mas a diretora do escritório me disse que o lugar já não estava vago. Ela me olhou com espanto, percebi que minha pele a surpreendeu”. Por fim, a mulher lhe oferece trabalho como faxineira.

Ao mesmo tempo em que escrevia suas cartas, Françoise Ega preparava um outro livro, Le temps des madras (O tempo de madras), com as memórias de sua infância e adolescência na Martinica (obra que certamente mereceria uma comparação com as memórias de Carolina Maria de Jesus em Diário de Bitita). Em Lettres a une noire, Ega fala com carinho da própria escrita. Conta do volume de folhas que cresce devagar – e de como o deboche do marido, um ex-militar que trabalha em um hospital, diminui em proporção inversa, até que ele passa a chamá-la carinhosamente de “minha escritora” –, do susto com a perda e posterior recuperação dos manuscritos, do dia em que ela entra em uma livraria para perguntar ao vendedor o que devia fazer para publicar seu livro, da preocupação com as mãos estragadas ao levar os originais para uma editora em Paris. Le temps des madras foi publicado pela L’Harmattan em 1966, mesma editora que publicou Lettres a une noire e, também postumamente, o romance inacabado L’alizé ne soufflait plus (Os alísios não sopram mais), em 2000.

Françoise Ega tenta por várias vezes estabelecer contato com Carolina Maria de Jesus. Chega a enviar o marido em busca do jornalista da Paris Match que escreveu sobre Quarto de despejo, mas, pelo jeito, nunca obteve resultado. Não consegui localizar, até agora, nenhum estudo, sequer algum comentário sobre seu livro no Brasil. Em notas, artigos e teses em inglês, francês e espanhol, o foco se concentra em Ega, sem muito cuidado em relação à destinatária de suas cartas. Há os que dizem que escrevia a uma amiga, outros parecem pensar que é uma personagem, têm aqueles que se referem a Carolina como “uma brasileira das favelas do Rio de Janeiro” e os que a incluem apenas em uma nota de rodapé. Pouquíssimos buscam pensar a relação estabelecida na narrativa. São textos sobre militância feminina, diáspora negra, trabalho de imigrantes e algumas raras análises literárias, em sua maioria voltadas para uma reflexão mais ampla sobre a literatura antilhana produzida por mulheres. Há, até, um tom mais condescendente, como costuma acontecer com a própria Carolina Maria de Jesus. Mas a recepção dessas obras, vasto território a ser desbravado, é assunto para uma outra discussão.

Importa, neste primeiro momento, observar a reverberação de vozes que muitos, mesmo dentro do campo literário, gostariam de ver silenciadas. Ao incluir Carolina Maria de Jesus em sua escrita, não como inspiração, ou como citação, mas como presença viva, Françoise Ega dá solidez ao seu texto e ao de sua “irmã” brasileira. Vincula-se a uma outra tradição literária, que lhe permite, enfim, ser protagonista de sua própria história. Não tenho dúvidas de que Carolina se sentiria honrada por estar ali, entre mulheres, negras e trabalhadoras, entre aquelas que pensam o mundo e, ao reconstruí-lo poeticamente, ampliam-nos diante de nossos olhos.

Fonte: Suplemento Pernambuco

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