Alimente sua alma. Inspire Sonhos!
Telefone
Bola Fora

Por Alba Atróz

No tempo em que Guaianases não passava de um bairro anônimo, escondido do mundo, oferecendo informação apenas através da tevê ou do rádio, tendo ainda como seu centro uma pequena avenida principal com uma precária passarela que se ligava à estação velha e algumas lojinhas, armazéns e barbeiros de canto tentando sobreviver, a rua se sobressaía como o único espaço da diversão para a molecada.

Ruas de terra ainda.

– Asfalto só pros ricos, rapaz – diziam os politizados.

Em uma dessas ruas, a Dr. Carlos da Costa, onde morei, nossa bola de capotão rolava arrastando pedregulhos e atolava na valeta lateral de onde era muitas vezes tirada à força por pernas e pés que mais pareciam foices ou tacos de golfe.

 – Ranca ela daí!

– Vai, vai, vai!

– Toca a bola, meu!

– Chuta, mané!

–  Váp!!!

Lembro que o comerciante Sebastião, figura lendária do bairro, sempre ficava de olho em nós, disciplinava avisando-nos, com um sarrafo na mão, para que tomássemos cuidado com o magote de litros de pinga que ele deixava exposto em cima do balcão do boteco.

Seu Sebastião, um sexagenário, sertanejo forte, magro e careca, mascador de fumo, usava sempre um chapéu panamá branco e tinha uma locução própria, unia os gestos a uma frase que chamava a atenção.

Quando via um cliente em potencial passar em frente ao bar, tentando se desviar do que as esposas não aprovam, Sebastião cuspia o fumo na lixeira e tratava logo de erguer uma garrafa da “boa pinga” e um pratinho cheio de fatias de mortadela temperadas com limão, tira gosto irresistível para aqueles que apreciam a “marvada”. O comerciante fazia questão de erguer os atrativos e gritar com sua voz rouca:

– Oi, homi! Quem não pidiu, pida!

O nosso jogo ia bem, até que um pelintra bêbado apareceu em cena e foi avistado por Seu Sebastião que –  como sempre fazia – cuspiu o fumo, ergueu o litro e o pratinho e encheu o pulmão para soltar sua frase que atrairia o freguês pinguço que passava do outro lado da rua vindo de um concorrente.

Naquele mesmo instante, o Tatu, um amigo da época, que nem sei por onde anda, se viu diante de uma chance clara de gol. Aquela que até nossas avós fariam. O gol estava praticamente feito. Ele entendeu que não poderia parar por nada neste mundo…

Assim, acabou esbarrando no bêbado, que caiu, deu um chute torto e a bola foi parar na boca de Seu Sebastião que, por sua vez, não conseguiu terminar sua frase:

– Oi, home, quem não pidiu… Puf!

Ouviam-se em seguida os barulhos das garrafas de vidro se chocando, caindo do balcão e se estilhaçando no chão.

Todos os moleques desertaram a rua. Ninguém ficou para ser castigado.

Fiquei sabendo às escondidas que o velho Bastião passou uma semana com a boca inchada, prometendo que uma bola nunca mais rolaria em frente ao seu boteco. Isso foi cumprido por ele, aquele foi o nosso último jogo ali. Migramos para o campinho da barroca, lembro.

E Guaianases cresceu e apareceu…

Até hoje, quando passo em frente ao bar, atualmente de portas fechadas, portas enferrujadas pela ação do tempo, um órfão sem esperança de ser reaberto por um sucessor à altura de seu único e exasperado dono já falecido, lembro da cena que descrevi.

Olho para o rico asfalto moderno e tardio, remendado e esculpido por obras desleixadas, mas que hoje cobre a pobre terra antiga e saudosa, e me pergunto:

“Meu?! Como o Tatu pôde perder aquele gol?”

Imagem de destaque: Arquivo Guaianases City – Fatos e Fotos

Adicionar Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios são marcados *