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Resenha do filme Aquarius, por Vavá Pereira

Por Vavá Pereira

A força que move Sônia (Braga) e Clara.

A música tem uma força descomunal na vida de qualquer pessoa. Ela faz viajar em sensações ainda desconhecidas ou em emoções que nem sabia que existiam, mas que se encontram em algum lugar perdido na intimidade de cada um. Ela se faz necessária para o bem-estar, a dor, a perda, a alegria, a desilusão. O fato é que uma trilha sonora transmite o sentimento do momento. Em Aquarius, a música é uma das forças motoras que faz a história girar e, em seus primeiros minutos, uma delas diz que a pessoa traz, em seu corpo, as marcas de seu tempo. A outra menciona que uma pessoa entra no quintal do vizinho, planta uma flor e o faz sorrir com esse gesto. E na terceira, existe a afirmação de que não há mulheres bonitonas por aqui, mas ainda há o prazer. São três músicas dos artistas Taiguara, Roberto Carlos e do grupo Queen, que podem perfeitamente resumir a vida da protagonista vivida por Sônia Braga.

Clara traz marcas, literalmente, do seu passado, que estão transbordando em seu presente. Seus filhos, o irmão e o grande carinho pelo sobrinho são flores que ela rega diariamente, com sabedoria e pequenas sutilezas (ou não) em suas palavras. E, por último, a sua idade, passou dos 60 e continua sendo uma mulher sem amarras, com verdades que acredita serem as mais corretas, e os prazeres que a vida pode proporcionar, como uma boa música e um relacionamento íntimo e sexual.

A atriz Sônia Braga começou sua carreira fazendo muito sucesso nas novelas, principalmente na mais conhecida delas, Gabriela, que mostrou ao mundo o que a baiana tinha, com beleza brejeira e sensualidade à flor da pele, fez os homens suspirarem e as mulheres sentirem uma pontinha de inveja. Depois foi ser Dona Flor, em Dona Flor e Seus Dois Maridos, que se tornou uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Em 1985 a sua carreira internacional deslanchou, com o filme O Beijo da Mulher Aranha. Agora volta com força total em Aquarius, um presente que recebeu de Kleber Mendonça Filho, diretor do aclamado O Som ao Redor.

Clara é personagem que podemos chamar de protagonista total, pois o que está ao seu redor se torna muito pequeno, ou tudo se afunila e converge para a sua pessoa. Aquarius é quase um monólogo de Clara, coadjuvantes são uma porção da protagonista, principalmente os não atores, que destoam e agradam pela singeleza e pela normalidade de suas ações. Clara é sobrevivente de um câncer e, em momento crucial, diz que hoje prefere dar um câncer a ter um câncer. E ela é assim. Seus sentimentos não mandam recados pelas beiradas, eles extrapolam na cara de quem mais precisar deles. Goste ou não. Viúva, mãe de três filhos e avó. Hoje vive só em seu apartamento, mas não está sozinha. Seus discos lhe fazem companhia, e algumas sombras do passado também. Sua memória antiga se junta com o presente.  A força de Clara e Sônia (Braga) se agigantam a cada cena ou palavra que sai da sua boca, ou em seu silêncio que grita pra quem quiser perceber. Existe certo cinismo ou deboche em suas artimanhas, mas que são necessárias para sobreviver no mundo em que, muitas vezes, só com pitadas de cinismo que se faz a verdadeira essência do viver e Clara sabe muito bem disso.

Kleber Mendonça Filho, o diretor, em seu segundo “filho” gerado para o mundo, trouxe um cinema diferente do seu primeiro. No Som ao Redor tinha-se coadjuvantes que se tornavam protagonistas, já em Aquarius tem-se a protagonista (única) que está entrelaçada por pequenos personagens, que chegam e vão embora, pois Clara é a detentora da obra, o resto se apequena. Kleber passeia por aqueles ambientes, ele olha de longe, observa e, quando preciso, chega mais perto, sentindo-se mais íntimo do momento. Aquarius pode ser militante, ou não, depende de como a pessoa irá vê-lo, aí sim, perceberá que é um momento que se abre para todas as possibilidades, com coragem de tomar posicionamentos na sociedade, na vida e, se possível, com uma boa música na vitrola.

Salve Clara, salve Sônia, salve Kleber!

Sinopse:
Clara (Sonia Braga) vive sozinha num apartamento à beira-mar do prédio Aquarius. Ela já tem uma vida estabilizada como crítica de música e como mãe de três filhos. Clara se recuperou de um câncer e o que ninguém sabe é que ela tem o poder de viajar no tempo.

Ficha Técnica:
Título Original: Aquarius
Título Brasil: Aquarius
Gênero: Drama
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Buda Lira, Carla Ribas, Daniel Porpino, Fernando Teixeira, Humberto Carrão, Irandhir Santos, Julia Bernat, Maeve Jinkings, Paula De Renor, Pedro Queiroz, Rubens Santos, Sonia Braga, Thaia Perez
Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd
Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero
Duração: 142 min.
Ano: 2016
País: Brasil / França
Cor: Colorido
Estreia: 01/09/2016 (Brasil)
Distribuidora: Vitrine Filmes
Estúdio: Cinemascópio Produções / SBS Productions

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