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Amargo Saramago (extraído do livro “Intocado”)

Por Jean Mello

José Saramago… Parece até clichê citar este tão falado autor. Assim como muitos, também me tornei escritor, motivado por seus escritos. Mas antes de contar esta breve história, tenho que te situar…

Na semana passada soltei uma nota sobre meu quarto livro, “Intocado”. A ideia é divulgar um poema do livro por semana, mesmo antes da publicação e lançamento do meu primeiro livro de poesia e prosa, algo que acontecerá em outubro ou novembro deste ano, pelo selo Inspirando Sonhos. Nesta semana compartilho um poema sobre minha relação com a obra do escritor português.

Vamos agora ao Saramago.

Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, costumava fazer minhas leituras no Pátio da Cruz ou nos centros acadêmicos de Letras, Pedagogia ou Ciências Sociais. Na época eu transitava entre as pedagogias de Paulo Freire e os romances de Frei Betto. Mas, no dia em que Saramago me foi apresentado, em meados de 2004, me lembro que estava lendo o livro “Alfabetto – Autobiografia Escolar”, de autoria do já citado Frei Betto. Estudantes de História, que já me conheciam das festas universitárias e de um grupo de estudos que eu participava, chegaram com a novidade: “pelas leituras que você gosta, achamos que vai adorar este livro”. Foi assim que fui apresentado ao “Ensaio Sobre a Cegueira”, ganhei de presente.

Terminei de ler o livro do Frei e comecei a ler o premiado ateu. Depois disso não consegui mais parar.

Logo em seguida passei a comprar os livros disponíveis dele. Até que cheguei ao mais que polêmico “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Mais em frente “Ensaio Sobre a Lucidez”, “O Conto da Ilha Desconhecida” e “Caim”. Tive contato com mais livros dele, mas estou citando apenas os mais marcantes para mim.

Os enredos desenvolvidos muito me cativaram. A forma com que Saramago pontua seus escritos, utilizando apenas vírgula e ponto, mesmo quando a fala é interrogativa ou exclamativa. Mas o ápice foi em 2005, quando, pessoalmente, assisti a uma palestra dele no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Citei este acontecimento em meu primeiro livro, “Crônicas Perdidas”. Para quem não leu, reproduzo, também, por aqui. Logo após a citação, mais um poema de meu quarto livro, “Intocado”.

Utopia? Prefiro acreditar em uma das afirmações do escritor José Saramago: utopia é apenas o amanhã. Para ele esta palavra não sinaliza algo que nunca vai existir. Ela é apenas o discurso do não existente hoje. Ao passar dos dias algo de agradável pode acontecer.

Saramago (1)

 

Amargo Saramago

 

I

redenção das palavras doces e amargas
renascimento do espírito guerreiro

ainda faltam pessoas não acomodadas
sobeja gente egoísta, pensando em seus próprios interesses
e o outro, foi simplesmente esquecido?

nossos discursos inflamados
em quase nada influenciam nossas práticas
nossas reflexões compartilhadas em público
servem apenas para inspirar pesquisadores, escritores e pensadores

palavras doces, sorrisos belos
só é fruto da mais astuta habilidade da serpente
os homens apreciam leis imperfeitas
tentando nos convencer de que é tudo fruto do amor
e da mais sublime perfeição

quando isso vai acabar
teremos mesmo de nos preparar para o fim?

damos prazo de validade aos recursos naturais
que não deveriam ser escassos
aceleramos o fim até do ar que respiramos
do céu que contemplamos
do mar que é sagrado
da terra

teremos em breve de pagar para respirar?
ainda existirá céu?

quando vamos parar de ser inimigos de nós mesmos?
ainda dá tempo de voltar atrás e frear o que aceleramos?

somos criativos, inovadores
temos ideias brilhantes para gerar lucro
por quais razões, então, destruímos tanto a natureza
para justificar nosso progresso?

quando isso vai acabar?
seremos nós os precursores de nosso glorioso fim?

II

sangue-atadura-fratura
nada de pacificação

mentiras descaradas
em nossa cara
de mãos atadas

sentimos na pele
o colorido das arquiteturas
midiáticas
com formas de suástica
das dores históricas de testes científicos
frigoríficos humanos

poesia das palavras duras
sim, vive, ainda mais que antes
prosas mais que errantes
tudo em seu devido lugar

ainda bem que não acredito na pura inspiração
mas creio na unção, visão, premonição, ações, alcateia
não me encanto com os delírios da plateia
sempre vivendo, correndo
de um passado horrendo
da roda gigante da vida
agora não mais temendo
simplesmente vivendo e crendo
criando meu próprio enredo
escancarada, enrolada em inverdades
quem sempre mente nunca tem encontro genuíno
com a transparência, foge da essência
de tanto se esvair se esquece de suas raízes

isso que escrevo é poesia ou prosa?

III

olhe em meus olhos
explique quais são as origens da miséria
respire, livre-se da fadiga, explique, explique
conspirações
ações evasivas, vazias
vazio no peito

interprete, finja que nada acontece no mundo
sente-se, cruze os braços, apenas ore ou reze
ironize tudo ao olhar pela janela de sua casa ou carro
realmente, dissimule, não existem pessoas morando nas ruas
não existem crianças abandonadas e racismo
isso tudo é invenção

você não tem nada a ver com isso
afinal de contas, isso nem existe
pode encostar sua cabeça no travesseiro
viajar e ostentar o ano inteiro
somos todos reféns do dinheiro?
relaxe, desigualdades sociais?
tudo invenção de relatórios criados

você não tem nada a ver com isso

IV

poesia insana
ensaio versos
busco o inalcançável
em dias de luta
escrita e conflito
nossos dias são aflitos
as chamas queimam nossas florestas
teremos céu, água ou ar?
acelerados os nossos dias
clamamos por aconchego, família
nossas armas não se restringem à poesia, prosa

cansados em neblinas pseudossociais
escrevemos e nos chamam de marginais
marginalizada é minha literatura
em grande parte aprendi na rua
sem vida marginal
observação pura e intelectual
simplesmente sociocultural

as ruas falam
vielas ou mansões
palacetes, alçapões
riqueza e pobreza
material ou de espírito
não tem como minha caneta parar

as ruas gritam
você não consegue ver?
escritos nas paredes
manifestações artísticas
ainda não está pronto para perceber?
ainda existe racismo
fascismo, ostracismo
sonhos em pedaços
a esmo, é isso?

manta acolhedora, proteção
invisível, indivisível
passível de desprezo
credos ridicularizados
pretos no topo
raízes de vida
luz mostrando a saída
regando
nossos alimentos da alma
tratando, percebendo
são palavras jogadas
ou pensadas?

sonhando acordado
com esse poema sem fim

V

amargo Saramago
leituras passadas e de hoje
perigo literário?
tentação de ateísmo
não quero
não consigo

VI

caixas de Pandora
iremos sempre abrir
nossas filosofias passadas
sempre irão ressurgir
não nascemos para cair
abolir o que não deveria existir

os anos passam depressa
indiferença, nada interessa
corremos, temos não só pressa
universalidade do conhecimento
preço antigo, raro artigo
está quase proibido pensar

escrever é ser
mundo montado
para gerar frustração
continue e supere
não se coloque no lugar do saber
escuta vale mais que diamante

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