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A poesia é sua força vital.

Isso está evidente em sua caminhada não apenas poética ou nos espaços culturais por onde ela circula em todo Brasil, mas em sua maneira de se expressar com milhares de pessoas todos os dias, na virtualidade das potentes redes sociais ou fora dela. A comunicação é sua vertente para impulsionar os textos de escritores afrobrasileiros. Sim, ela tem essa particularidade e, ao longo da entrevista, você vai entender por quais razões. Para dar um gostinho, já pode dar um clique no grupo que ela criou no Facebook.

E não é só, nem queremos dizer que isso seja simplista, Lúcia Helena dos Santos ultrapassa, transcende, a virtualidade.

Advogada e militante dos movimentos negros e sociais, longa trajetória nos espaços acadêmicos, articula o Brasil e, porque não dizer, o mundo em prol da igualdade racial e social.

Agora a voz dela será exaltada através das letras. Queremos saber…

Inspirando Sonhos: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória, vale apontar para as raízes de sua infância…

Lúcia Helena dos Santos: Nasci em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, minha infância e juventude foi vivida no bairro Menino Deus, sou de família da classe média, sempre tive o gosto pela leitura, estimulada por meus pais e a escola. Procurava viajar no imaginário das histórias, frequentava bibliotecas e escrevia poesias desde criança. Tinha o hábito de mostrar as poesias para minhas amigas. Um dia, uma delas mostrou para a  irmã da minha amiga e esta passou a caçoar de mim. Desde aquele dia, não mostrei a mais ninguém, passei a poetizar a sete chaves.

Meu pai era meu fã incondicional, cada poesia que eu criava, ele apreciava. Mas a emoção o tocava além da conta, chegando a sentir palpitações e, então, com medo que algo estranho pudesse acontecer por causa do que escrevia, lacrei meus textos não mostrando a mais ninguém.  Tempos mais tarde, quando estava no ensino médio, escrevi um texto poético,  mostrei para uma colega na escola e ela acabou plagiando a minha obra afirmando que o conteúdo era de seu domínio. Protestei junto à professora e ela não ligou para o fato, inclusive aumentou a nota da aluna, falsa poeta. Fecho minha ‘torneirinha’ de poesias, amareladas em um caderno de folhas coloridas por vários anos. Depois de um longo tempo e com imensa alegria retorno a escrever e publicar minhas obras poéticas em antologias nacionais e internacionais, participando ativamente de inúmeros concursos poéticos, saraus e de todo movimento cultural literário do país.

A poesia é uma das minhas alegrias.

Meu pai, meu maior incentivador para a leitura e o estudo, sempre me ensinou a lutar, batalhar de cabeça erguida, e dizia para nunca esquecer dos amigos “livrinhos”. Acompanhou os meus estudos e rendimento na escola. Cresci ouvindo dele que só venceríamos as barreiras da discriminação racial e almejaríamos um patamar de vida economicamente social através de muito estudo e conhecimento. Naquela época não entendia muito o que dizia sobre essa questão étnica no país, mas aos poucos fui captando a mensagem. Ele foi uma pessoa atuante ativo em inúmeros movimentos sociais, religiosos, políticos, culturais e afrobrasileiros.

Minha mãe, zelosa, carinhosa, protetora, sábia mulher, tinha só o primeiro grau incompleto, mas gostava muito de ler e cantar, adorava o mundo das artes. Dona de casa, cuidou e educou os cinco filhos para serem pessoas de bem, sempre se preocupou com a nossa educação formal, estudos, cursos etc.

Foi uma mulher, esposa e mãe incrível, extraordinária na sua sabedoria e amor com todos. Sempre dizia: – escreve tudo o que tu pensas, porque às vezes esquecemos o que queremos. Tudo o que pensamos, deve ser escrito para um dia, virar um livro. Também cresci ouvindo dela: – estuda, para ser independente, livre, ser dona do teu nariz, não depender de homem nenhum e não deixar ninguém montar em ti. Guerreira, lutadora pela família e pelos bons costumes. Tenho muitas saudades dela.

Minha infância foi tranquila e muito feliz, cresci em um bairro de classe média onde nós éramos uma das poucas famílias negras. Brincávamos com todos, nos dávamos bem com os vizinhos.

Brincava muito no bairro em que cresci, fui criança de verdade: frequentava a pracinha; andava de bicicleta; brincava de boneca; casinha; panelinha; pega-pega; esconde-esconde; subia em árvores e plantei uma também; pulava corda, elástico, sapata e caracol; tomava banho de chuva e mangueira; jogava taco; confeccionava roupinhas para as bonecas; montava jogos de quebra-cabeça; aprendi a nadar; escrevi peças infantis, em que produzia e apresentava para as crianças do bairro na garagem de um condomínio. Criei um pequeno comércio com balinhas, pirulitos, chicletes e vendia para as crianças da vizinhança.

Iniciei meus estudos de piano com 8 anos com a minha madrinha e professora Nilda Simões Leite, uma pessoa adorável e muito carinhosa, porém não cheguei a completar o curso. Na família, aprendi a ouvir música de todos os estilos desde o popular ao clássico.

Inspirando Sonhos: Fale-nos de suas memórias escolares…

Lúcia Helena dos Santos: Estudei um pouco em escola pública, tive alguns professores muito bons e outros que não tenho a menor vontade de lembrar. Depois passei a estudar em escola particular, percebi a diferença no ensino privado com mais qualidade e boa formação pedagógica, professores mais responsáveis e interessados com o teu crescimento. Nunca fui uma aluna brilhante, mas me esforçava para obter um bom aprendizado, boas notas e aprovação.

No Ensino Médio fiz o curso de magistério, estagiei em uma escola pública de periferia, de boa qualidade, em que os pais, os alunos, o policial militar que fazia a segurança da escola e as mulheres da faxina, eram quase todos negros e se orgulhavam em ter uma professora negra, eu me sentia muito bem e feliz lecionando para aquela turma, todos com os olhos cheios de esperança, foi um tempo muito bom, ganhava presentes quase que diariamente daquela gente simples e de bom coração.

Nessa escola em que estagiei, percebi o quanto era importante ter uma educadora afrodescendente, uma referência para as crianças negras e brancas. Refleti que o nosso  país necessitava com urgência de grandes expoentes negros para aumentar a autoestima e dar visibilidade às crianças e jovens negros. Com as crianças da minha turma, criei clubes de leitura e incentivava a frequentarem bibliotecas.

Formada como professora, lecionei na antiga escola particular onde havia estudado, tive uma boa receptividade com os alunos, pais e direção da escola, cheguei a implementar na época o assunto sobre vida e história de Zumbi dos Palmares, tive carta branca da diretora, houve muita aceitação, motivação e interesse pelo tema.

A minha passagem na escola formal proporcionou um amplo aprendizado e conhecimento, formação religiosa, campanhas humanitárias, feiras científicas e o gosto pelas artes, esporte,  língua estrangeira (inglês),  geografia,  língua portuguesa, biologia,  química,  sociologia e OSPB (organização social e política brasileira), além dos bons professores que ficaram na minha memória.

Iniciei, mais tarde, meus estudos em casa para ingressar na universidade, tentei o vestibular por três vezes. Consegui aprovação no curso de Direito. Estudava na faculdade no turno da manhã e lecionava à tarde. A carreira foi escolhida para tentar reparar as injustiças da sociedade e lutar por justiça. Minha mãe continuou a me ajudar nas leituras, ela dizia não entender nada de Direito, mas lia os artigos de lei para eu interpretar. Ao final, com muita leitura e estudo em casa e na biblioteca da universidade, esforço e batalha, colei grau no curso de Direito. Tenho muito orgulho e satisfação pela missão com imensa finalidade social.

Inspirando Sonhos: Literatura… Quais são suas referências? 

Lúcia Helena dos Santos: Castro Alves, Machado de Assis, José do Patrocínio, José de Alencar, Cora Coralina, Cecília Meirelles, Maria Clara Machado, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Lya Luft, Marina Colasanti, Léo Buscaglia, Luís Fernando Veríssimo, Érico Veríssimo, Chimamanda Ngozi Adichie, Roberto Shinyashiki, Alex Haley entre tantos…

Inspirando Sonhos: Na sociedade de hoje ainda é importante falar sobre racismo?

Lúcia Helena dos Santos: Sempre, é de total importância discutir essa questão, enquanto houver racismo institucional e estrutural e não for banida da mente e do coração das pessoas, essa questão tem de ser provocada e discutida na família, nas escolas, instituições de ensino superior, nos grupos comunitários sociais e religiosos.

O racismo tem de ser banido de todo e qualquer lugar, para que um dia possamos viver em fraternidade e plena igualdade. Também é imperativo lutar para a obrigatoriedade da lei sobre o estudo da história da África e afrobrasileira que não está sendo cumprida.

Inspirando Sonhos: O que é a vida?

Lúcia Helena dos Santos: É um grande curso maravilhoso em que Deus é o Professor. Há uma fase preparatória, com regras que se deve seguir, um estágio de aprendizado e o ofício para o desempenho das boas tarefas.

Inspirando Sonhos: Quais são seus sonhos ainda não alcançados?

Lúcia Helena dos Santos: Tenho muitos, um deles é publicar meu livro, para que a obra possa chegar a todas as partes do mundo e todas as pessoas possam ter o gosto de ler, refletir, analisar, criticar, elogiar, corrigir e sobretudo entender a mensagem para abrir um caminho de transformação na suas  vidas.

Abrir uma escola de Ensino Fundamental no Brasil, em que as crianças carentes possam ter um ensino de qualidade, enfrentar um Ensino Médio com qualificação e ingressar com excelência no Ensino Superior.

Inspirando Sonhos: Esquecemos de perguntar algo que deseja mencionar?

Lúcia Helena dos Santos: Educação é o caminho que liberta as pessoas das correntes da ignorância, da miséria e da opressão.

Quanto à questão étnica no Brasil, afirmo que muita coisa mudou. Há  um longo caminho a ser percorrido que deve ser traçado por todos  os brasileiros, rumo à construção da igualdade e da paz social.

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