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Por Alba Atróz

dificuldade

Já ia para um mês o seu estado crítico financeiro e a fome o devorava. Deixou de ficar debruçado na janela, contando o número de ratazanas que saiam dos encanamentos irregulares por onde vinham todo o fétido esgoto que desaguava no córrego a passar rente aos barracos da favela.

Correu até o forno na esperança de encontrar um pedaço de pão amanhecido, mas lembrou de ter comido as últimas sobras no dia anterior. A geladeira já estava desligada havia dias, não tinha lógica manter aquele eletrodoméstico funcionando, a gastar energia à toa, pois fazia tempo que um alimento não era posto ali; mesmo assim ele abria e reabria, não raciocinava mais, estava desnorteado, a barriga não deixava-o em paz, reclamando através de roncos altos.

Resolveu revirar a casa toda na esperança de encontrar alguma moeda ou cédula perdida por aqueles lúgubres cômodos. Ele lembrou-se que, em “tempos de vacas gordas”, quando ‘trampava’ numa metalúrgica, era muito desmazelado e desperdiçava valores simplórios; gostava mesmo de andar com valores “significantes” em seu bolso.

– Joguei tanta moeda fora – disse – deve ter alguma perdida por aí.

Rancou as vestes do guarda roupas e procurou bolso por bolso de calças, ternos, camisas, jaquetas, bermudas, ali não encontrou nada. Então vasculhou em caixas que estavam em cima de seu armário onde documentos estavam organizados. Jogou tudo ao chão. Também nada nas gavetas, nada atrás da porta, nada aqui, nada acolá, nada, nada, nada; então ficou em crise por um momento, deitado no chão, de barriga para cima, olhando para o teto e respirando ofegante. De repente deu lugar a uma fúria, levantou-se de supetão e ergueu o estrado da cama com a força do desespero que o tomava. E quando pensou que estava perdido: pimba! Uma moeda de um real apareceu entre a poeira acumulada e cadáveres de baratas. Seus olhos já fundos luziram e seu rosto chupado rejuvenesceu diante daquele ouro.

Ao se apossar da moeda, ele olhou para os lados, olhou a rua pela outra janela, dois vizinhos conversavam naquele instante em frente sua casa, então ele segurou com força o dinheiro, bateu-lhe um receio sem nexo, disfarçou para o nada, para ladrões fantasmas que iriam tomar-lhe a moeda, até que caiu em si quando uma pequena sanidade o trouxe de volta e permitiu-lhe rir de sua esquisitice.

– Rá, rá, rá, rá, a fome deve estar me enlouquecendo…

De posse da moeda, procurou, entre as roupas jogadas e amarrotadas, uma bermuda e camisa. Ia trocar-se para ir até a padaria e comprar alguns pãezinhos… Já vestido, poderia sair logo, mas não conseguia desvencilhar-se da alegria que deixou-o embasbacado e sem noção. Assim, ficou erguendo a moedinha e levando até os lábios para beijá-la, foi justamente neste instante que o seu velhinho e ultrapassado celular tocou; era um colega que lhe devia uma quantia:

– Ramon?! – gritou o colega do outro lado da linha. – Dá pra dar um pulo aqui em casa? Eu quero te pagar o que devo, mas não tenho como ir aí agora. Eu estou com minha mãe doente, sabe como é, né?

– Cla…cla…ro. Tô…tô…indo aí…

– Cê ta com uma voz estranha. Cê tá bem?

– Tô, tô, é só uma dorzinha de garganta…

– Então tá bom, te aguardo aqui em casa.

Foi tomado por outra euforia e uma tremedeira apossou-se dele quando pensou no que poderia comprar com aquela grana. O estado de nervo abalado fez a moeda escapar de seus dedos e, diante de seus olhos atônitos, ela foi rolando até o orifício do ralo da pia bem no momento que ele pretendia beber um pouco de água para tentar acalmar-se.

– Ainda bem que eu não preciso mais dela – disse conformado.

Recebeu o dinheiro do colega que o olhou desconfiado achando-o magro, pálido, com cara de quem está usando algum tipo de droga.

– Se cuida, você não parece estar bem, Ramon – recebeu o conselho.

E ele só balançou a cabeça para seu amigo pagador, deu as costas e partiu rumo ao mercado. Resolveu cortar caminho para chegar logo. Embrenhou-se por becos, vielas e estradinhas esquisitas até que se viu sem energia, tonto e perdido. Faltava-lhe capacidade para raciocinar. Deu brecha para dois sujeitos mal encarados, parados numa esquininha sem iluminação, se aproximarem dele, quando notaram sua presença debilitada, e tirarem suas conclusões julgando pela aparência comum de viciados da quebrada: era um nóia cheio do dinheiro. Tinha roubado alguma senhora por aí.

– Seu verme! Ladrãozinho safado… Vai aprendê a roubá os outro, vai… – diziam enquanto o chutavam depois de tomarem-lhe o dinheiro.

Roubado e agredido fisicamente, Ramon arrastou-se sofregamente até seu barraco, procurou sua velha marreta e, assim que a encontrou, buscou um restante de força para quebrar a pia enquanto, de olhos arregalados, boca aberta e suando frio, possuído pela febre, ele dizia insanamente:

–  Esta moeda é minha salvação… Minha salvação… Ela tem que estar aí…

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