Alimente sua alma. Inspire Sonhos!
Telefone
A Escotilha

Por Alba Atróz

E a curiosidade raiou infantil e desejosa. As nuvens ainda podiam ser vistas por ela não como partículas de gelo ou água em estado líquido, mas como algodões doce, pois os oito anos de Cristina ainda eram capazes de afastar as realidades do mundo adulto e conduzi-la pela ingenuidade pueril.

Foi em meio à turma, em pleno andamento da aula, que surgiu a dúvida: “O que acontece quando só um aluno vem pra aula?”, especulou em sua imaginação e uma escotilha logo se abriu propiciando a comunicação entre imagens que automaticamente a levaram para longe de onde estava, longe daquele tempo real, só ela e a professora, isso nunca acontecera…

Começou a enxergar possibilidades contrárias àquelas que sua rotina escolar propiciava.

“Só pra mim” – pensava em seu íntimo em um momento em que olhos paralíticos, mesmo abertos, só enxergam as imagens em balõezinhos na mente e os ouvidos se ensurdecem para o externo e se voltam para o que somente a imaginação diz.

– Só veio você hoje? – perguntaria a professora surpresa e logo diria em tom simpático: “Então não vamos fazer lição hoje não, Cristina! Vamos nos divertir… Quer um chiclete? Pegue mais um. Eu vou deixar aqui em cima da mesa, pegue quantos você quiser, tá bom?”.

Uma amiguinha contou que, uma vez, quando muitos alunos faltaram em sua aula, a professora até deu sorvete para os presentes e não passou nenhuma matéria no dia, pelo contrário, deixou todo mundo ficar jogando damas, brincando de forca na lousa e lendo gibis na biblioteca.

– Ela não deu bronca em ninguém – disse a amiga, e acrescentou: – Parecia outra professora, você precisava ver…

– Seria bem legal… – enfatizou Cristina sentindo vontade de viver a mesma coisa, se vendo lambendo um picolé enquanto lia uma engraçada história em quadrinhos.

Um papel amassado foi arremessado na cabeça dela por um bagunceiro coleguinha do fundo da sala, isso interrompeu o doce devaneio da menina.

No momento em que a professora ia bronquear o garoto, alguém bateu na porta da sala e abriu-a em seguida.

– Com licença, professora!

Era a secretária que veio cobrar o dinheiro de um passeio ao zoológico que aconteceria bem no dia seguinte.

Em resposta a uma pergunta feita, sobre se teria aula ou não para quem não fosse ao passeio, a secretária respondeu:

– Pra quem não for terá aula normal, a professora vai estar aqui para dar aula normalmente, não é professora?

E a professora apenas expressou um esgar de sorriso diante de todos.

Comprometida em realizar seu sonho, Cristina então decidiu por não ir ao passeio. Assim se deparou com a escola do jeitinho que esperava encontrar: vazia e silenciosa, com uma sala de aula aberta só pra ela e sua professora.

Atravessou o então irreconhecível pátio, emudecido pela folga da maioria, cumprimentou com a cabeça a inspetora e também uma das serventes que estava a recolher os restos de lixo da cantina, e seguiu assoviando na direção de sua sala de aula onde estava somente quem a aguardava e quem ela queria, sobretudo, ver e estar: a docente, comprometida, concentrada a corrigir seus trabalhos e provas.

“Que legal! Deus está atendendo meu desejo” – acreditava Cristina, cheia de entusiasmo, com o coração palpitando e um sorriso vibrante na face.

A fantasia estava em partes concretizada. Agora ela iria saber como era ser a única em sala de aula. Só ela e a professora. Chicletes, sorvetes, diversão, só ela e a só sua professora.

– Oi, Cristina, você não foi ao passeio? – perguntou-lhe a professora interceptando o entusiasmo da aluna de uma forma amarga.

Cristina respondeu tímida:

– Não, não professora, eu preferi vir para a sua aula, eu gosto mais…

E a professora ergueu-se brusca, deu as costas à aluna e se dirigiu até o armário onde ficou por um ou dois minutos organizando materiais escolares.

E então, em um momento daqueles em que sensibilidades contrárias se confrontam para apenas uma ganhar e que a ponte estabelecida corre riscos de quebrar por alguma palavra errada, a resposta que Cristina tanto esperava, a respeito de como era ter a professora só pra si na escola, veio no tom austero de voz da docente que emergiu de forma bem fria e inesperada para a menina:

– Então senta aí e abra o livro no capítulo 3. Vamos ler o texto sobre como os doces estragam os dentes.

E a escotilha fechou.

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