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“Somos artistas e temos o poder de transformar”, entrevista com o contrabaixista Fernando Rosa

Fernando Rosa é uma referência no campo da música. Trata-se de um contrabaixista que inspira muita gente a seguir nas veredas da arte e da cultura no Brasil. Para nossa equipe é primordial divulgar histórias como a dele, dar ênfase em caminhadas de valorização plena da cultura brasileira quando o assunto é representatividade.

Inspirando Sonhos: Como alcançou essa completude musical?

Quando iniciei, na verdade, não imaginava a dimensão que a música iria ter no percurso de minha vida. Apesar de ter certeza que seria isso que iria fazer, sempre fui muito despretensioso. Hoje, tenho mais consciência e consigo projetar melhor o que desejo realizar. Acredito que foi um conjunto de fatores, alguns como: profissionalismo, tocar uma variedade de estilos e a preocupação com a sonoridade que me ajudaram a conquistar espaço nesse meio.

Inspirando Sonhos: Quais foram seus mentores nessa caminhada? Compartilhe conosco um pouco de sua trajetória artística, se for o caso, pode remontar as raízes de sua infância, intercalando com sua caminhada musical.

Muitos nomes tiveram responsabilidade nisso, mas vou destacar: minha família, com certeza, músicos como Celso Pixinga, Aldo Landi, Vinícius Dorin e Moisés Alves que foram de grande contribuição na minha formação. Comecei muito cedo a tocar, era ainda um garoto. Primeiro iniciei amadoramente tocando em círculos religiosos, depois profissionalmente com artistas populares e grupos de música instrumental.

Créditos: @ronaldcastrj

Inspirando Sonhos: Contrabaixo. Como desenvolveu paixão por este instrumento?

Foi quase que automático. Quando via e ouvia baixistas como Louis Johnson, Jaco Pastorius e John Patitucci ficava alucinado — ainda fico — e dizia: – “Eu quero fazer isso!”. Comecei com violão, me lembro de ficar sempre tocando nas cordas mais graves (risos).

Inspirando Sonhos: O que é ser um músico, negro, no Brasil?

Nunca tive maiores problemas em minha profissão por manifestar traços afrodescendentes, talvez porque sempre estive ligado a estilos que foram atribuídos principalmente a esse tipo de cultura, como o soul, jazz, samba, blues e gospel. Então, não houve muitas barreiras para mim, mas já sofri algum tipo de preconceito em outros contextos e, infelizmente, sei que isso ainda é uma realidade. Acredito que todos nós viemos de uma origem comum que remonta a milhares de anos atrás, possuímos em nosso corpo aspectos de todas as raças e se buscarmos nos conhecer melhor entenderemos que somos advindos de uma mesma fonte.

Inspirando Sonhos: Fale um pouco de suas parcerias, com quais músicos já tocou e quais projetos, neste sentido, estão em andamento neste momento de sua carreira?

O mercado musical não é feito apenas de música, existem outros setores dentro disso, o que vai além de instrumentos musicais, acessórios e equipamentos. O músico cada vez mais tem exposto sua imagem pessoal, deixando muitas vezes de ser apenas aquela figura vestida de roupa preta atrás do artista, e as redes sociais têm um papel importante nisso. Hoje, não é difícil encontrar músicos que possuem parcerias com empresas de roupas, cosméticos, mídia, alimentos, profissionais liberais etc. Eu tenho o apoio de uma empresa de cabos customizados (Efa Cabos), de caixas (Wbass Cabinets), e de uma barbearia (Raymond’s Barber Shop). Atualmente, acompanho o cantor Ed Motta e uma jovem cantora, Kell Smith, além de atuar em meu próprio projeto de música instrumental e também de outros músicos, em que realizo shows, gravações, workshops e oficinas.

Inspirando Sonhos: Comente um pouco de sua sinergia com a música instrumental.

A música instrumental também é uma paixão antiga, foi por ela que comecei a tocar. O que mais me impressiona nesse estilo é a maneira como se comunica, você pode falar em qualquer idioma através dela, não há fronteiras, pode fazer um solo aqui no Brasil e ele ser compreendido em Cingapura, ou em qualquer lugar do mundo. Notas, acordes, ritmos, harmonia e melodia são vibrações que podem ser detectadas e refletidas diretamente em qualquer pessoa. O ser humano é um ser musical. A natureza, o nosso corpo, o cosmo é uma grande sinfonia, procuro sempre deixar que isso flua naturalmente a fim de que possa interagir com todos os meus sentidos.

Inspirando Sonhos: O que é espiritualidade para você e quais significados isso traz para sua arte?

Somos constituídos por diversos corpos que trabalham em diferentes graus de vibração, estes vão de planos mais densos até os mais sutis. A própria ciência já provou que na verdade a matéria não existe, tudo não passa de níveis de vibração. Tudo é energia vibrando! Espiritualidade, para mim, é algo que está além de qualquer crença, descrença ou religião, faz parte do ser humano porque ele mesmo existe no plano espiritual. Às vezes, nos preocupamos apenas com nosso corpo físico — ou nem esse — e deixamos de desenvolver outros aspectos de nossa existência. Independentemente de cuidar ou não dessa área, isso trará reflexos em nossa vida. Desenvolver a espiritualidade me faz ter uma melhor relação comigo mesmo, com as pessoas, com a natureza e com a vida em todos os seus aspectos, o que influencia em tudo o que faço, inclusive em minha música.

Inspirando Sonhos: Quais sentidos você atribui à palavra artista?

Arte é o poder transformador. Seguindo esse conceito, todos nós somos artistas e temos o poder de transformar. O ser humano é o único que pode escolher o seu caminho. Um pássaro será sempre um pássaro, age pelo seu extinto e não poderá ser um coelho, por exemplo. Agirá sempre à maneira que foi criado, suas atitudes serão sempre as mesmas. Mas o homem pode ser várias coisas, pode se transformar. Não existe uma programação definida para ele. A arte nos aproxima do Todo (Deus), é um elo de atração, nem que seja por um momento. Quando você contempla um artista, você pode ver o divino nele. A transformação acontece sempre. Esse momento agora não é o mesmo há segundos atrás, passou. Quando você dorme e se levanta, um cenário se transforma para você, uma arte foi feita. A terra se moveu, o sol se revelou, os pássaros cantaram e você despertou. Artista é aquele que está em movimento, seja o movimento das cordas de um músico, de um pincel arrastando a tinta sobre uma tela, do dançarino desafiando a gravidade ou no simples acordar. Você é um artista. Quando viemos a esta existência, carregando talentos ou dons, estes nos foram dados como ferramentas para evolução, não apenas nossa, mas de toda a existência.

Inspirando Sonhos: Quais são os sentidos da vida? Como você os expressa através da sua arte?

Essa é uma pergunta filosófica que nem mesmo a filosofia conseguiu responder, tampouco a ciência e a religião puderam dar alguma resposta sobre isso, então, ela perdura no âmago do homem há muito tempo. Talvez, seja porque essa resposta não existe. A vida não tem sentido nenhum, ela não precisa, a vida em si é o próprio sentido. Sempre procuramos definições, uma razão para tudo e, assim, vem a constante necessidade de definir. Quando você define, você demografa. O próprio significado da palavra definir é dar fim, mas é inútil dar fim à vida, ela não acaba. Já disse que tudo é energia e esta não pode ser destruída, apenas transformada. Dizemos: – “Dê-me uma resposta, um sentido”. Esperamos muitas vezes que essa resposta venha do outro, mas ela está em nós mesmos. Isso nos faz refletir no que realmente é a vida? Será que ela é um sentido ou um lento arrastar de anos que se acumulam? O melhor da vida é ela não ter sentido e sim ser o sentido. Não vejo nenhuma árvore preocupada com esse isso tipo de coisa. Só o ser humano tem esse tipo de questão porque ele sabe que vai morrer. E a morte é o desconhecido, e daí vem o desconforto. Estamos aqui para evoluir. Conhece a ti mesmo, já dizia o filósofo…

Créditos imagem de destaque: @ronaldcastrj

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